 | Em menos de um ano, o Horror perdeu dois de seus grandes mitos do cinema, vitimados pelo câncer: Vincent Price morreu em 26 de outubro de 1993 e depois, Peter Cushing, que faleceu aos 81 anos de idade no dia 11 de agosto de 1994, em Kent, no sul da Inglaterra. Do grupo de atores lendários no gênero, Bela Lugosi, Boris Karloff, John Carradine, Vincent Price, Peter Cushing e Christopher Lee, somente este último ainda sobrevive, com 80 anos de idade.
Cushing nasceu em 25 de maio de 1913 em Kent, Surrey, Inglaterra. Estudou arte dramática em Londres e fez sua estréia profissional no palco com a peça "Cornelius", interpretando depois vários papéis por alguns anos na Inglaterra. No final dos anos 30, viajou para a Califórnia e iniciou carreira em Hollywood fazendo uma ponta em "The Man in the Iron Mask" (1939), dirigido por James Whale (do clássico "Frankenstein", 1931). |
Depois de aparecer em algumas pontas, como em "A Chump at Oxford" (1939) com a dupla de comediantes "O Gordo e o Magro", ele retornou para a Inglaterra em 1942. Na Europa, sua primeira aparição notável veio em 1948 quando Laurence Olivier o colocou como Orsic na produção de "Hamlet". Outros papéis importantes no teatro e na televisão se seguiram e ele se tornou um ator popular, ganhando em 1955 o prêmio "Actor of the Year". Sua aclamada interpretação na versão televisiva de "1984", de George Orwell, o levou a ser convidado para o papel do barão Frankenstein no clássico da Hammer "A Maldição de Frankenstein" (The Curse of Frankenstein, 1957), dirigido por Terence Fisher e que tinha Christopher Lee como o monstro criado a partir de restos de cadáveres.



A partir daí, sua carreira teve uma ascensão notável, vindo a interpretar diversos papéis para filmes de horror das produtoras inglesas
Hammer e Amicus, tornando-se um mito no gênero.
Em 1958, imortalizou o personagem Dr. Van Helsing no clássico "
O Vampiro da Noite" (The Horror of Dracula), novamente com direção de
Terence Fisher e onde combate o lendário vampiro interpretado por
Christopher Lee (que aliás foi imortalizado como o principal
"Conde Drácula" do cinema), e em 1959, faz o papel de Sherlock Holmes na história de Arthur Conan Doyle, "
The Hound of the Baskervilles".



Nesse mesmo ano, também atuou na versão da
Hammer para a clássica criatura "
A Múmia" (The Mummy), novamente com o rival
Christopher Lee como o monstro.
Em 1964, filmou um dos melhores filmes da década de 60 e da história da produtora
Hammer, "
A Górgona" (The Gorgon), novamente lutando contra
Christopher Lee (quem mais?), numa história sobre uma criatura mitológica com serpentes na cabeça que transforma as pessoas que a vissem em pedra. Este pequeno clássico da produção
"B" era frequentemente reprisado na televisão brasileira pelo SBT em madrugadas perdidas em dias normais de semana, porém faz muitos anos que não é exibido novamente.
Nos anos seguintes de 1965 a 1966, Peter Cushing interpretou o famoso personagem inglês
"Dr. Who", em dois longas de ficção científica juvenil para a televisão,
"Dr. Who and the Daleks" e
"Daleks: Invasion Earth 2150 AD.", ambos dirigidos por Gordon Flemyng.
Na década de 70, o ator apareceu em diversos filmes da
Hammer e Amicus que eram divididos em episódios como "
A Casa que Pingava Sangue" (The House That Dripped Blood, 70), clássico absoluto do gênero com
Christopher Lee participando de um dos episódios; "
Asilo Sinistro" e "
Tales From the Crypt" (ambos de 72), e "
From Beyond the Grave" (73).



Em 1983, Cushing apareceu em "
House of the Long Shadows" (lançado em vídeo VHS no Brasil como "
A Mansão da Meia-Noite") onde atuou ao lado de
Vincent Price,
Christopher Lee e
John Carradine, sendo o único filme na história a reunir esses quatro monstros sagrados do Horror.
Seu último trabalho foi em 1985,
"Biggles - Adventures in Time", época em que já atuava muito pouco devido ao câncer contraído em 1982.
No total foram cerca de 91 filmes, 60 dos quais do gênero fantástico, onde
Peter Cushing interpretou vários personagens marcantes, em sua maioria cientistas
"loucos" e reprimidos, e cujas performances lhe trouxeram o simpático título de
"Gentleman of Horror" (O Cavalheiro do Horror), devido ao seu ar aristocrático e tipicamente britânico.
"Quando eu ouvi que meu velho e muito querido amigo Vincent Price havia morrido, eu me alegrei por ele. Ele estava sofrendo dolorosamente com sua saúde durante os últimos anos e estava muito só desde a morte de sua querida esposa Coral Browne. Eles estão reunidos agora, e Vincent deixou para trás um rico legado filmográfico para as futuras gerações desfrutarem. Deus o abençoe." - palavras de
Peter Cushing, sobre a morte de
Vincent Price em outubro de 1993, na revista
"Scarlet Street".



DEZ ANOS SEM O CAVALHEIRO DO HORROR
por Marcello Simão Branco
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Há pouco mais de uma década, em 11 de agosto de 1994, falecia o ator inglês Peter Cushing, um dos ícones do cinema de horror. Uma das características mais curiosas de sua carreira foi ter atuado em vários filmes do gênero sem quase nunca ter sido o vilão principal. Este papel coube na maioria das vezes ao seu amigo e parceiro Christopher Lee. Ao "cavalheiro do horror" ficou a tarefa de combater monstros, lobisomens, alienígenas e principalmente vampiros. Tudo à sua maneira, é claro, pois ele não era o tipo galã que provocava suspiros na platéia: apesar de lutar contra o mal, era um intelectual emocionalmente reprimido, excêntrico, circunspecto e, acima de tudo, britânico.
Nascido em 26 de maio de 1913 na cidadezinha de Kenley, Inglaterra, Cushing estudou teatro nas melhores escolas, atuou como assistente de direção durante alguns anos até sua estréia em 1935 na peça The Middle Watch. |
Já à época era um fã dos filmes de horror americanos da
Universal Pictures, e então atravessou o Atlântico e foi tentar a sorte em Hollywood. Sua experiência não foi das mais bem sucedidas, atuando em papéis coadjuvantes em algumas comédias da dupla O Gordo e o Magro.



Sua estréia no cinema aconteceu em 1941 no filme
The Man in the Iron Mask. No mesmo ano, estreou em Hollywood na produção de
Vigil in the Night. Mas rolava a Segunda Guerra Mundial e ele acabou recrutado para atuar numa série de curta-metragens pró-aliados como parte do esforço de guerra.
Pelo fim dos anos 40 Cushing voltou aos palcos londrinos, mas foi no filme de Sir Lawrence Olivier que ele se destacou como um dos personagens de Hamlet, de Shakespeare. A seguir atuou em algumas produções inglesas sempre com papéis cada vez mais complexos. Até que em 1954 foi aclamado por sua atuação como o atormentado Winston Smith, na adaptação da TV inglesa do romance
1984 de George Orwell.
Glória na Hammer
Por essa época estava nascendo na Inglaterra uma nova escola de cinema de horror, a Hammer Films. Apesar de produções modestas, remodelou o gênero bastante desgastado com as produções da Universal dos anos 30 e 40. Entre suas principais virtudes e inovações, havia a ênfase na fotografia excessivamente colorida, quase berrante, a música tocada ao som de órgãos e outros instrumentos pouco usuais, recontando velhos clássicos de uma maneira mais violenta, sensual e com um clima gótico muito eficiente. Mas foi, sobretudo, com atores carismáticos que a Hammer fez história. Houve um grupo deles, mesmo os coadjuvantes, mas os dois astros foram o vilão Christopher Lee e o cavalheiro Peter Cushing. Parceiros de atuação e antagonistas nas histórias, um completava o outro, com charme, talento e alguma dose de ironia, de não levar totalmente a sério os papéis que desempenhavam. A eles merece igual destaque o diretor Terence Fisher, o grande artesão e estilista da maneira Hammer de contar uma história de horror.
E foram vários os sucessos da produtora, a começar com A Maldição de Frankenstein (1957), O Vampiro da Noite (1958), O Cão dos Baskervilles (1959), A Múmia (1959), A Górgona (1964), Ela (1965) - este último estrelado pela suprema bondgirl Ursula Andrews, como uma estranha e poderosa mulher de uma ilha esquecida, baseado num romance do criador de Tarzan, Edgar Rice Burroughs - e outros verdadeiros clássicos do cinema de horror.
Assim, coube a Cushing interpretar o Barão Victor Frankenstein, o caçador de vampiros Van Helsing, um arqueólogo idealista às voltas com a maldição da múmia e até Sherlock Holmes. Sempre mantendo intactas suas peculiaridades exóticas, aristocráticas, soturnas. Características parecidas com sua própria pessoa.


Peter Cushing é muito lembrado também como o cientista louco de dois filmes para o cinema da série de ficção científica inglesa da BBC,
A Guerra dos Daleks, uma série de TV que não foi até hoje exibida no Brasil. Trata-se de uma legenda da TV inglesa sendo exibida por mais de dez anos ininterruptos. O longa-metragem é de 1965 e nessa época Cushing ainda interpretava vários papéis para a
Hammer. Além de sua longa interpretação como Dr. Who, é bom ressaltar que atuou também em dezenas de telefilmes, com especial destaque para a produção
The Caves of Steel (1964) - raríssima -, uma adaptação do bom romance
Caça aos Robôs, de Issac Asimov. Cushing interpretou o protagonista, o investigador Elijah Baley.
No início dos anos 70, ele mudou de produtora. Com a decadência da
Hammer, foi para a rival (e não tão brilhante) Amicus e emprestou seu talento a bons filmes, como
A Casa que Pingava Sangue (1970) - quatro histórias curtas, baseadas em contos de Robert Bloch - ,
O Expresso do Horror (1972) e
A Essência da Maldade (1973). Estes dois últimos falando, coincidentemente, de monstros há muito esquecidos das estepes siberianas e de ilhas indonésias. Todos, ao lado do parceiro e vilão Lee, que também mudou de produtora.


Armadilhas
Da mesma maneira que a fórmula de filmes de horror foi usada à exaustão pela
Universal Pictures, o mesmo fez a
Hammer. Resultado: filmes cada vez piores, bilheterias menores, cancelamento de novas produções, desemprego para a maioria dos atores. E Cushing atuou em
'pérolas', algumas curiosas até pelo título, como por exemplo,
Drácula no Mundo da Mini-Saia, de 1972.
Desta forma, a exemplo dos astros Bela Lugosi e
Boris Karloff, que pagaram um alto preço nos anos 50 e 60 por trabalharem em várias produções de horror de má qualidade, caminho parecido seguiram os ídolos ingleses
Peter Cushing e
Christopher Lee, atuando em vários filmes ruins no início dos anos 70, para em seguida verem minguar os convites para atuarem em produções de melhor qualidade.
Afora a queda dos bons personagens para interpretar, Cushing sofreu um duro golpe em 1971, quando morreu sua mulher Helen Cushing. O ator era muito apegado a ela, a amava de uma maneira intensa, e o declínio de sua carreira também pode ter sido motivado pela perda da esposa.





Mesmo assim, corria o ano de 1977 e um jovem cineasta hollywoodiano, deu o último papel digno a Cushing. O diretor era
George Lucas, que foi filmar na Inglaterra (pois os cachês eram mais baratos) e fazer história com a space-opera
Guerra nas Estrelas. Cushing interpretou o personagem maligno de Grand Moff Tarkin, comandante de Darth Vader nas forças do Império.



No conjunto de sua filmografia,
Peter Cushing brilhou no clássico de Lucas e é saudado como o
Dr. Who pelos fanáticos fãs desta série inglesa. Mas dez anos após sua morte o que melhor representa sua carreira são os personagens que fez para a
Hammer.
Sherlock Holmes, o
Barão Victor Frankenstein e, sobretudo, o
Professor Van Helsing, são as principais facetas daquele que está justamente imortalizado como o gentleman of horror.
Os Principais Filmes de Peter Cushing:
O ator teve uma carreira bastante longa de 47 anos, onde atuou em 133 produções, entre cinema e TV.
Segue uma listagem básica, com os principais filmes.
1939: The Man in the Iron Mask
1940: Vigil in the Night
1948: Hamlet (Hamlet)
1954: 1984 (1984)
1956: Alexandre, o Grande (Alexander the Great)
1957: A Maldição de Frankenstein (The Curse of Frankenstein)
1957: O Monstro do Himalaia (The Abominable Snowman)
1958: O Vampiro da Noite (Horror of Dracula)
1958: A Vingança de Frankenstein (Revenge of Frankenstein)
1959: O Cão dos Baskervilles (The Hound of the Baskervilles)
1959: A Múmia (The Mummy)
1959: A Carne e o Diabo (The Flesh and the Fiends)
1960: As Noivas de Drácula (The Brides of Dracula)
1962: The Man who Finally Died
1964: O Monstro de Frankenstein (The Evil of Frankenstein)
1964: The Caves of Steel
1964: A Górgona (The Gorgon)
1965: As Profecias do Dr. Terror (Dr. Terror's House of Horrors)
1965: Ela (She)
1965: The Skull
1965: A Guerra dos Daleks (Dr. Who and the Daleks)
1966: Ilha do Terror, A (Island of Terror)
1967: E Frankenstein Criou a Mulher (Frankenstein Created Woman)
1967: As Torturas do Dr. Diábolo (Torture Garden)
1969: Frankenstein Tem de Ser Destruído (Frankenstein Must Be Destroyed)
1969: Grite, Grite Outra Vez (Scream and Scream Again)
1970: Carmilla, a Vampira de Karnstein (The Vampire Lovers)
1970: A Casa que Pingava Sangue (The House that Dripped Blood)
1971: O Soro Maldito (I, Monster)
1971: As Filhas de Drácula (Twins of Evil)
1972: Contos do Além (Tales From the Crypt)
1972: Um Grito Dentro da Noite (Fear in the Night)
1972: Terror na Penumbra (Nothing But the Night)
1972: A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes (Dr. Phibes Raises Again)
1972: Asilo Sinistro (Asylum)
1972: Drácula no Mundo da Mini-Saia (Dracula A.D.)
1973: A Lenda do Lobisomem (Legend Of The Werewolf)
1973: Os Gritos que Aterrorizam (And Now the Screaming Starts!)
1973: A Essência da Maldade (The Creeping Flesh)
1973: O Expresso do Horror (Horror Express)
1973: Vozes do Além (From Beyond the Grave)
1974: Os Ritos Satânicos de Dracula
1974: A Casa do Terror (Madhouse)
1974: A Lenda dos Sete Vampiros (The Legend of the Golden Vampires)
1974: A Fera Deve Morrer (The Beast Must Die)
1975: O Carniçal (The Ghoul)
1976: No Coração da Terra (At the Earth's Core)
1977: Shock Waves
1977: Maldição dos Gatos, A (The Uncanny)
1977: Guerra nas Estrelas (Star Wars)
1980: O Mistério da Ilha dos Monstros (The Mystery of Monster Island)
1983: A Mansão da Meia-Noite (House of the Long Shadows)
1986: Adventures in Time
Agradeço a Renato Rosatti pela indicação de alguns filmes e a checagem dos títulos em português.
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