A HORA DA ZONA MORTA

Texto escrito por André Bozzeto Junior



Certamente, todo fã que conhece um pouco do envolvente universo do cinema de horror e suspense sabe que, salvo raras exceções, a grande maioria das produções baseadas em obras de Stephen King resultaram em filmes fracos e muitas vezes até medíocres. Exemplos de bombas não faltam, basta lembrar de bobagens como “Tommyknockers – Tranquem Suas Portas”, “A Criatura do Cemitério”, “Mangler – O Grito do Terror”, “Comboio do Terror”, enfim, a lista é longa. Mas felizmente, para a nossa sorte, também existem bons filmes inspirados nos trabalhos do mestre King. Nesse sentido, não se pode deixar de citar “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, “Carrie, A Estranha”, de Brian De Palma, “O Cemitério Maldito”, de Mary Lambert, e “Na Hora da Zona Morta”, do grande David Cronemberg. Esse último, consiste no meu filme favorito em se tratando de Stephen King, e justamente por isso decidi escrever esse texto.
Para quem não lembra, esse filme foi baseado no livro “Zona Morta (The Dead Zone)”, que Stephen King publicou em 1979. Por sinal, o próprio King afirmou em seu site oficial que considera esse livro como o melhor de sua extensa carreira, bem como o filme, que ao lado de “O Cemitério Maldito” representa a melhor adaptação de uma obra sua. Logicamente, sempre que consideramos um filme como sendo “o melhor” ou “o pior” de determinado estilo ou categoria, estamos fazendo isso baseados em nossas próprias impressões e idéias, de forma que as opiniões podem variar muito de uma pessoa para outra. Porém, independente de ser ou não o melhor filme, “Na Hora da Zona Morta” é com certeza uma das mais fiéis adaptações de livros do autor, perdendo apenas para “O Cemitério Maldito” (o que é bastante compreensível, uma vez que foi o próprio King que escreveu o roteiro). Quem já leu os livros sabe do que eu estou falando. Aliás, essa é uma das maiores queixas dos fãs do escritor: muitos filmes são lançados alegando serem “baseados na obra de Stephen King, mas na verdade aproveitam apenas a idéia central do livro, ou alguns personagens, e distorcem completamente a moral da história, fazendo que o nome do escritor acabe funcionando apenas como marketing de obras que não têm nada a ver. Em outras palavras: picaretagem.



Mas partindo mais diretamente ao assunto, o enredo de “Na Hora da Zona Morta” nos mostra como personagem central o professor de literatura Johnny Smith (em uma ótima interpretação de Christopher Walken), que após sofrer um grave acidente automobilístico acaba ficando durante vários anos em coma. Ao acordar, Johnny tem que se adaptar a uma triste realidade: os anos em que permaneceu inconsciente fizeram com que perdesse o emprego, as amizades e a namorada Sarah (Brooke Adams), agora casado com outro, e já com um filho pequeno. Sem falar nas limitações físicas, que fizeram com que o professor passasse a ter permanentes dificuldades de locomoção, mesmo depois de muito tempo em fisioterapia. Porém, juntamente com a profunda tristeza de ver sua vida sofrer tão drástica transformação, Johnny também descobre que despertou do coma com um incrível poder de premonição. Isso faz com que, ainda no hospital, ele consiga prever um incêndio na casa de uma enfermeira, e graças ao seu aviso, uma criança que estava na residência pode ser salva. Depois desse insólito acontecimento, o professor não consegue mais ter paz, sendo que a todo o momento surgem pessoas pedindo a ajuda de seus poderes premonitórios. Logicamente, essa situação aumenta ainda mais o desconforto do já melancólico Johnny. E Por falar em melancolia, nunca é demais lembrar que esse filme não consiste em uma obra de terror. Talvez nem mesmo suspense. Eu diria que esse filme é um drama, com elementos sobrenaturais, é verdade, mas assim como no livro, a história se desenvolve em meio a uma ambientação triste e depressiva, sendo que em alguns momentos é impossível não se solidarizar com os infortúnios do predestinado professor. E nesse sentido, é muito interessante ver um herói (ou talvez anti-herói) como Johnny Smith, que se mostra humano e sensível, com dores e medos como todos nós, a ponto de chorar abertamente quanto se encontra triste ou assustado.



Mas retornando a história, em virtude de seus poderes, Johnny vai se envolver em uma série de situações inusitadas, como auxiliar a policia de uma cidade vizinha na caçada a um estuprador serial-killer, tentar impedir que um aluno seu morra em um acidente conforme previu, e até ter que tentar deter Greg Stillson (Martin Sheen) um político inescrupuloso que tende a levar o mundo ao holocausto. Tudo isso em meio aos seus próprios dramas, como conviver com a morte da mãe e a ausência de Sarah, sua eterna paixão.
É interessante notar que todo esse resumo que eu expus segue fielmente o conteúdo do livro, sendo que mudam apenas alguns detalhes, o que é bem compreensível, uma vez que não seria nada fácil sintetizar o conteúdo de um livro de mais de quatrocentas páginas em um filme de menos de duas horas de duração.
Entre as principais diferenças existentes entre o livro e o filme, talvez a mais significativa diga respeito ao personagem Chris (o aluno que Johnny tenta salvar do acidente), que no livro é um adolescente, jogador de futebol e conquistador de garotas, e no filme é um menino de uns doze anos, mais ou menos, praticante de hóquei no gelo. Estou citando essa diferença por que no livro o personagem tem um considerável destaque, enquanto no filme ele aparece bem pouco, de forma que sua importância acaba sendo reduzida. Outra mudança notável envolve Greg Stillson, que é abordado detalhadamente ao longo de todo o livro, e no filme acaba participando da trama somente próximo do final.
Para quem leu o livro, existem dois momentos marcantes: o primeiro é quando Johnny e o Xerife de Castle Rock invadem a casa do serial-killer. Essa seqüência é levemente modificada em relação ao livro (e sinceramente, achei que ficou até melhor) e constitui-se num dos momentos de maior tensão e impacto do filme. O outro grande momento é o epílogo, também um pouco diferente da obra literária, mas que fechou com chave de ouro essa grande produção, até ajudando que não leu o livro a entender melhor os aspectos subjetivos da obra. Também merece destaque a cena em que o professor tem a visão do incêndio, no início (talvez o único momento realmente assustador do filme), e aquela parte do ônibus, próximo do final, onde Johnny viaja com a arma escondida em seus braços, enquanto sua voz surge narrando a carta de despedida que ele escreveu para Sarah. Comovente. Isso sem falar no final propriamente dito, trágico e depressivo.
Antes de finalizar, também é preciso destacar o excelente trabalho do diretor David Cronemberg, que dirigiu clássicos como “Scanners – Sua Mente Pode Destruir”, “Videodrome – A Síndrome do Vídeo” e o definitivo “A Mosca”. Se esse filme resultou em um trabalho tão bem-acabado e detalhista, sem dúvida, grande parte dos méritos se deve a ele. Também é válido lembrar que esse filme foi produzido por Dino De Laurentiis (responsável pelas superproduções protagonizadas pelo Dr. Hannibal Lecter) e Debra Hill (que produziu ou co- produziu alguns filmes da série “Halloween”, inclusive o original).
Por fim, “Na Hora da Zona Morta” é um filme diferente e inteligente, que vale a pena ser assistido, não somente pela fidelidade a obra de King, mas também pela inegável qualidade desse trabalho que hoje parece tão distante dos padrões usuais da indústria cinematográfica atual.



Curiosidades:

· No começo do filme, o professor Johnny aparece falando aos seus alunos sobre o livro “A Lenda de Sleepy Hollow”, que inspirou o filme “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” de Tim Burton, no qual o ator Cristopher Walken (interprete de Johnny) também atuou;
· O livro “Zona Morta” também inspirou uma série de televisão, produzida em 2002, mas onde apenas a idéia básica foi aproveitada, assim como alguns personagens, não se tratando propriamente da reprodução da história do livro;
· No livro, Johnny Smith já esboçava sinais de seus poderes premonitórios mesmo antes do acidente, dando a entender que ele seria uma espécie de predestinado. No filme isso não é mostrado, de forma que ele só adquire seus poderes após despertar do coma;
· No filme, Johnny ficou cinco anos em coma, mas no livro esse tempo foi maior, cerca de nove anos;
· “Zona Morta” é a maneira como Johnny definia os lapsos de memória que acompanhavam suas premonições. Isso é bastante abordado no livro, mas no filme é mencionado apenas uma vez, durante uma conversa de Johnny com seu médico;
· Vários livros que Stephen King escreveu durante as décadas de 80 e 90 fazem menções e referências a personagens e situações de “Zona Morta”, o que confirma a grande estima do autor por essa obra;
· O conceituado diretor Tim Burton, que dirigiu filmes como “Batman”, “Edward – Mãos de Tesoura” e o remake de “O Planeta dos Macacos” afirmou que “Na Hora da Zona Morta” é um de seus filmes favoritos, tanto que convidou o ator Cristopher Walken para participar de “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, como forma de homenageá- lo;

A Hora da Zona Morta(The Dead Zone, EUA, 1983) - Direção: David Cronemberg - Produção: Dino De Laurentiis e Debra Hill Elenco: Cristopher Walken, Brooke Adams, Tom Skerrit e Martin Sheen – Música: Michel Kamen – Fotografia: Mark Irwin – Roteiro: Jeffrey Boam – Baseado na obra de Stephen King.


Texto: André Bozzeto Junior

Artigos