THREE...EXTREMES
(Three... Extremes / Saam Gaang Yi, Japão/China/Coréia do Sul, 2004)

Direção: Takashi Miike (“Box”), Fruit Chan (“Dumplings”) e Chan-wook Park (“Cut”).
Roteiro: Haruko Fukushima (“Box”), Lilian Lee (“Dumplings”) e Chan-wook Park (“Cut”).
Produção: J. J. Abrams, Alex Kurtzman e Roberto Orci.
Edição: Fruit Chan (segmento "Dumplings"), Jae-beom Kim segmento "Cut"), Sang-Beom Kim (segmento "Cut") e Yasushi Shimamura(segmento "Box")
Música: Kôji Endô (“Box”) e Kwong Wing Chan (“Dumplings”).
Elenco: Segmento “Box”: Kyoko Hasegawa (Kyoko), Atsuro Watabe (Yoshii/Higata), Mai Suzuki (jovem Kyoko), Yuu Suzuki (Shoko). Segmento “Dumplings”: Ling Bai (Mei), Pauline Lau (Li's Maid), Tony Leung Ka Fai (Lee), Meme Tian (Connie), Miriam Yeung Chin Wah (Ching). Segmento “Cut”: Byung-hun Lee (Diretor), Won-hie Lim (Estranho), Hye-jeong Kang (Mulher do Diretor), Dae-yeon Lee (Ator com uniforme escolar feminino), Gene Woo Park (Assistente do Diretor), Mi Mi Lee (Kyung-Ah), Gyu-sik Kim (velho manequim) e Jung-ah Yum (atriz no papel de vampira).
Distribuição: Inédito em DVD no Brasil.


SINOPSE
Filme composto por 3 curtas metragens de terror realizadas por 3 realizadores orientais.


“3 pesadelos concebidos por 3 mestres do horror oriental.”

Qual é o extremo do comportamento humano? A que pesadelos a vingança, a vaidade ou a inveja podem nos levar? Esta questão é o fio quase imperceptível que une as três histórias contadas em “Three... Extremes”. Sórdido, perverso e sinistro. A diversidade de estilos e técnicas marca o encontro entre os três mais aclamados diretores do continente Asiático, o japonês Takashi Miike, o chinês Fruit Chan e o sul-coreano Chan-wook Park.



Impecáveis tecnicamente, os três médias-metragens comprovam de modo absoluto a grande fase do cinema oriental, que desde a projeção internacional dos já clássicos “Ju-on: O Grito” (Ju-on: The Grudge, 2003) e “Ring: O Chamado” (Ringu, 1998), vem se cristalizando como um dos melhores do mundo.

“Box” (Japão, 40 min.)
Kyoko (Kyoko Hasegawa) é uma escritora assombrada por pesadelos recorrentes em que é enterrada viva. O passado e o presente se confrontam no momento em que recebe um misterioso convite. Uma terrível tragédia de infância deverá ser revivida para que toda a culpa e a inveja possam ser finalmente enterradas.



Dirigido pelo mestre do gore nipônico, Takashi Miike, “Box” é o segmento mais surreal dos três. A razão e a verdade são violadas, ao melhor estilo “David Linch” (diretor de “A Estrada Perdida”, de 1999), onde tanto os sonhos e a realidade, quanto o passado e o presente, se misturam compartilhando a mesma estranheza do protagonista com o espectador.

Os conhecedores da obra de Miike devem se surpreender pela sutileza do realizador neste trabalho, que deixa de lado a violência gráfica e estilizada de seus filmes mais famosos (“Audition” (1999) e “Ichi: The Killer” (2001)), e assume um lado mais poético e enigmático, ainda que o final do episódio tente ser incomodo.



Esperava-se mais ousadia do realizador Takashi Miike, conhecido por seu espírito transgressor, que mostrou-se aqui competente, mas aquém de todas as expectativas. E apesar da bela fotografia, o roteiro difícil, mas coerente e das boas atuações do elenco, o episódio “The Box” acaba sendo rotulado apenas como um Miike contido e convencional.

“Dumplings” (Hong Kong, 37 min.)
Ching Lee (Miriam Yeung Chin Wah) é uma atriz em crise profissional e pessoal que recorre aos famosos bolinhos da cozinheira Mei (Ling Bai), que supostamente retardam o envelhecimento e até devolvem a juventude. A questão está no ingrediente secreto e pouco convencional da iguaria.

O segundo episódio, o mais incômodo e perturbador, faz um estudo sobre o medo do envelhecimento e os limites que definem o que é sadio e o que é obsessivo, na busca da perfeição estética. O componente misterioso do “dumpling” (uma espécie de pastelzinho cozido e com recheio) é revelado já nos minutos iniciais da trama. A partir daí, o roteiro se desdobra em situações extremas que colocarão em prova a sensibilidade dos expectadores mais conservadores.



Realizado pelo subversivo diretor de Hong Kong, Fruit Chan ("Hollywood, Hong Kong" (2001) e "Public Toilet" (2002)), “Dumplings” é, sem dúvida, o mais extremo dos três segmentos. É o único também que deu origem a um longa-metragem, lançado em DVD no Brasil como “Escravas da Vaidade” (“Dumplings”, 2004). Pouco é acrescentado ao longa em relação ao episódio de “Three... Extremes”, já que foi realizado pela mesma equipe técnica e foram usados os mesmo atores. Apenas o epílogo foi alterado, diminuindo o impacto da ousada seqüência final do média-metragem.

Ainda como um dos aspectos memoráveis do segmento, está a excelente fotografia de Christopher Doyle (“2046”, de Wong Kar Wai (2004), “Hero”, de Yimou Zhang (2002) e “A Dama na Água”, de M. Night Shyamalan (2006)).

“Cut” (Coreia do Sul, 45 min.)
Um diretor de filmes de terror (Byung-hun Lee) e sua esposa pianista (Hye-jeong Kang) são mantidos reféns por um ator “coadjuvante” num estúdio de gravação. O maníaco exige que o diretor prove que é capaz de praticar um ato de maldade. Caso não consiga, a cada cinco minutos, será cortado um dos dedos de sua esposa.



Dirigido por Park-Chan Wook (do fabuloso “Oldboy”, 2003), “Cut” é uma variação de “Jogos Mortais” (“Saw”, 2004), onde a aposta do realizador é mais a violência gráfica do que a psicológica. A fotografia e as peripécias da câmera (que na seqüência inicial dá um passeio pelo set, no estilo “Quarto do Pânico” (2002), de David Fincher), dão uma mostra do potencial e energia visual que são as características registradas do diretor sul-coreano.

Infelizmente, o resultado é muito inferior ao conseguido pelo diretor na sua cultuada trilogia da vingança, formada por “Sympathy for Mr. Vengeance” (2002), “Oldboy” (2003) e “Sympathy for Lady Vengeance” (2005).

Na verdade, a idéia de realizar uma antologia de horror com diretores asiáticos evoluiu da produção “Saam Gaang”, de 2002 (embora anterior a “Three... Extremes”, recebeu o título internacional de “Three... Extremes 2”).

Entre mortos e feridos, “Three... Extremes” se mostra um grande exercício cinematográfico, reunindo os mais notáveis diretores do oriente, abordando de modo peculiar temas complexos como demência, inveja, aborto, obsessão, vingança e incesto.

João Pires Neto




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