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Em 1983, quando a Paramount resolveu investir 6 milhões de dólares no novo projeto de um então jovem diretor chamado Michael Mann, provavelmente todos pensavam ter um novo clássico nas mãos. Após alguns trabalhos menos expressivos na TV americana, Mann despontava, naquele ano, como um cineasta inteligente, criativo e autoral, que a crítica considerava uma mistura americanizada de mestres como Michelangelo Antonioni, Werner Herzog e Stanley Kubrick. Seu filme anterior, THIEF, de 1981 (no Brasil, PROFISSÃO: LADRÃO), foi um sucesso independente, um policial estrelado por James Caan que representou os Estados Unidos no Festival de Cannes. Isso deu ao cara uma moral fantástica em Hollywood: qualquer bobagem que ele quisesse fazer depois de THIEF ganharia suporte e financiamento. |
E a escolha não poderia ser melhor: Mann resolveu adaptar um best-seller chamado THE KEEP (no Brasil, "O Fortim"), lançado dois anos antes por F. (de Francis) Paul Wilson, um grande fã de H.P. Lovecraft. Não tinha como dar errado; e justamente para garantir que tudo daria certo, o novo projeto da "grande promessa da década" foi cercado de tudo do bom e do melhor, como o diretor de fotografia indicado ao Oscar Alex Thomson e o técnico de efeitos especiais Wally Veevers (o homem que fez Christopher Reeve "voar" em SUPERMAN - O FILME). Para melhorar ainda mais a coisa, Mann selecionou a dedo um elenco repleto de nomes talentosos e caras conhecidas (alguns ficariam famosos somente depois, como Gabriel Byrne e Ian McKellen), e chamou o grupo pop alemão Tangerine Dream para compor a trilha sonora.
Realmente, não tinha como dar errado. Mas deu. E MUITO errado!!!

THE KEEP, que em português virou
A FORTALEZA INFERNAL, foi um verdadeiro pesadelo para todos os seus envolvidos - um pesadelo que até hoje os assombra, diga-se de passagem. Profissional reconhecidamente cabeça-dura, Michael Mann adora dizer que faz seus filmes do jeito que ELE quer. E estas imposições do cineasta ajudaram a transformar o projeto dos sonhos da
Paramount no festival de equívocos que se tornou.
Mann até era bem-intencionado: ele queria apresentar sua própria visão do livro de Wilson, e não fazer uma adaptação literal da obra como o estúdio (e o próprio Wilson) queria. Isso enfureceu o escritor desde que ele leu a primeira versão do roteiro, que foi escrito pelo próprio diretor. Vários elementos importantes da história foram limados por Mann. Para piorar, o cineasta deixou bem claro que não estava interessado em filmar uma simples história de horror gótico (que era
"O Fortim" no papel), mas sim um
"conto-de-fadas para adultos" sobre o horror da guerra, trocando o
"gótico" por uma aura estilizada e luminosa, exagerada como era comum nos anos 80 - vamos dizer apenas que a espada de metal que o herói usava no livro se transformou, no filme, numa arma futurista que emana uma luz neon e dispara raios laser de cor púrpura!!! Repleto de luzes brilhantes, câmera lenta e muito nevoeiro (como se alguém tivesse esquecido uma máquina de gelo seco ligada o tempo inteiro),
A FORTALEZA INFERNAL é, sim, exageradamente estilizado.


E os problemas não ficaram por aí. A briga entre Mann e Wilson (o escritor renega o filme até hoje, tendo dito na época que era
"visualmente intrigante, mas totalmente incompreensível") foi apenas a ponta do iceberg. Os excessos do cineasta e seu extremo perfeccionismo (ele mudava o roteiro e os diálogos praticamente todos os dias!) começaram a preocupar os produtores; cenários imensos foram construídos em estúdio para situar os atores numa típica fortaleza medieval, como a descrita no livro, e isso foi encarecendo o custo do projeto. Na reta final da pós-produção, o renomado técnico de FX Veevers morreu sem concluir os efeitos especiais, obrigando os outros técnicos a se virarem como podiam - o que ocasionou um atraso de seis meses e deixou certas cenas incompletas, com um engraçadíssimo ar trash.
Finalmente, a
Paramount decidiu que Michael Mann estava completamente perdido. Acredite se quiser, mas o sujeito filmou nada mais nada menos de três finais diferentes, porque simplesmente não sabia como terminar a história! Ele sonhava com um filme épico-fantástico de 3h30min de duração, até que tomou um balde de água fria dos produtores: primeiro, eles cortaram o dinheiro a mais que Mann pediu para refazer algumas seqüências importantes da história (entre elas, o duelo final); finalmente, os homens da grana afastaram o diretor da sala de edição e fizeram seu próprio corte, resultando num grande enigma de 96 minutos de duração. Seqüências inteiras foram eliminadas, inclusive diálogos importantes que explicavam a motivação dos personagens. Alguns destes personagens, aliás, desaparecem da narrativa sem mais nem menos.

A FORTALEZA INFERNAL tornou-se um filme incompreensível, mas não foi culpa de Michael Mann. A edição imposta pelo estúdio é uma das piores e mais irresponsáveis edições da história do cinema, e é humanamente impossível entender a trama sem ler o livro de F. Paul Wilson antes ou depois!!!
Do jeito que ficou, confuso e não-terminado,
A FORTALEZA INFERNAL foi um dos grandes fiascos de 1983. Os produtores devem ter sentido vontade de queimar todas as cópias quando o filme estreou com toda expectativa (principalmente dos críticos que endeusaram Mann por
THIEF) e foi esculhambado sem salvação por crítica e público. No fim, saiu de cartaz tendo arrecadado menos da metade do que custou (e olha que estamos falando de uma época onde se ia ao cinema muito mais do que hoje, e em que não era comum filmar superproduções de 250 milhões de dólares, como se faz atualmente). Tendo em vista o resultado da
"brincadeira", é um verdadeiro milagre que a carreira de Mann tenha sobrevivido a críticas com trocadilhos irônicos e intraduzíveis, como
"You can keep THE KEEP". A experiência foi tão traumatizante que o cineasta renega o filme até hoje (Quer vê-lo nervoso? Fale de
A FORTALEZA INFERNAL durante uma entrevista... hahahaha). O trauma também atingiu a
Universal, que se recusa terminantemente a lançar uma
"Director's Cut" em DVD julgando que não seria economicamente rentável.


Decepcionado com o fiasco estratosférico da empreitada, o pobre Mann chegou a abandonar o mundo do cinema por um bom tempo, dedicando-se exclusivamente à produção executiva do seriado televisivo
MIAMI VICE, e o resto é história. Ah sim: ele também brigou com a galera do
Tangerine Dream, já que teria alterado a trilha sonora composta pelo grupo sem avisar.
E quanto à
FORTALEZA INFERNAL... Bem, ela acabou assim, relegada a um triste e injusto esquecimento...


Por ser incompreensível e mal-editado, o filme ganhou fama não-merecida - as classificações variam de
"extremamente trash", embora a produção seja de primeira, até
"sem pé nem cabeça" - o que também é um tanto injusto, já que a culpa é da edição, e não do roteiro. Ironicamente, com o tempo, surgiu uma verdadeira legião de fãs de
A FORTALEZA INFERNAL, de maneira que a problemática obra tornou-se no mínimo uma curiosidade cult, aquele tipo de filme
"amar ou odiar".
Hoje, há quem defenda com paixão e há os que não podem nem ouvir falar nele (incluindo seu próprio diretor). Mesmo confessando que fui obrigado a ler
"O Fortim", o livro que inspirou o filme, para entender a maior parte da história, sou um dos fãs confessos de
A FORTALEZA INFERNAL desde que o vi pela primeira vez, na época das emboloradas fitas VHS da
CIC Vídeo que traziam um resumo no verso contando até o final do filme. Com uma trama fora do convencional e tecnicamente irrepreensível (Michael Mann É um grande diretor, e isso não se discute), a obra pode até ser inexplicável, como disse F. Paul Wilson, mas seu visual é fantástico, belíssimo, hipnotizante. Se não é um filme de história (problema da edição, volto a salientar), certamente é um filme de imagens. E uma vez imerso no clima, você se apaixona para sempre - por pior que a obra seja, já que a edição atual de 96 minutos está muito longe de ser perfeita...

A FORTALEZA INFERNAL é a história de um destacamento de soldados alemães enfrentando uma criatura sobrenatural durante a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas estavam quase dominando a Europa. A trama começa com um comboio do exército alemão cruzando as enlameadas estradas do Passo Dinu, nos Alpes Cárpatos (Romênia), no outono de 1941. O pequeno pelotão, comandado pelo capitão Klaus Woermann (o alemão Jürgen Prochnow, perdido até hoje como coadjuvante em produções classe B), tem a missão de vigiar o Passo Dinu, considerado estrategicamente importante pelos militares. Na aldeia há uma velha fortaleza medieval onde os nazistas resolvem se instalar. Uma má idéia, já que esta é a
"fortaleza infernal" do título... hehehehe.


Logo na chegada à imponente construção, Woermann se impressiona com o fato de as paredes estarem cobertas por centenas de cruzes de níquel (108 no filme, 16.807 no livro!!!). Não são cruzes comuns, mas um tipo curioso, quase em formato de
"T", com a barra horizontal muito mais acima do que tradicionalmente deveria estar (o livro explica o porquê, mas o filme não; portanto, leia o livro!).


Um dos homens da vila, Alexandru (Morgan Sheppard), explica ao capitão que é o responsável por cuidar do fortim. Woermann pede quem é o proprietário, mas o velho não sabe dizer. Ele simplesmente obedece às ordens e recebe seu pagamento do proprietário
"invisível" do local.
"Meu pai fazia isso, antes o pai dele fazia, e meus filhos continuarão fazendo", resigna-se Alexandru, completando:
"Vocês não podem ficar aqui. Nunca ninguém ficou!". O oficial nazista diverte-se com a superstição do
"ignorante" camponês, ainda mais quando ele diz que as pessoas que dormem no forte têm pesadelos terríveis.
"O grande pesadelo criado pelo homem é a guerra, e perto dela os pesadelos daqui se transformam em contos-de-fadas!", resmunga Woermann, numa das belas contribuições de Mann ao texto original de Wilson.


Os soldados alemães começam a se instalar na fortaleza, colocando luminárias nas paredes, ligando um gerador, descarregando as armas e equipamentos... É quando um som chama a atenção de Alexandru e de Woermann: um dos recrutas, o soldado Lutz (John Vine), tenta arrancar uma das cruzes da parede com a lança da sua baioneta. O guardião do fortim tem um faniquito:
"NUNCA toque nas cruzes!", ordena. Furioso com o acontecido, Woermann repreende Lutz e o coloca para fazer a ronda noturna durante todas as noites da semana. É seu grande erro: o recruta tem certeza de que há um tesouro escondido por trás daquelas cruzes, e não vai desistir de arrancá-las. Claro, será ele o típico idiota que dá início ao pesadelo, um personagem comum nos filmes de horror!


Na primeira noite dos nazistas no Passo Dinu, enquanto o capitão Woermann está cheio de dúvidas em relação à velha fortaleza (
"Ela foi construída ao contrário, com pedras grandes por dentro e pedras pequenas por fora. Não foi construída para evitar que alguém entre, mas que alguém saia...", filosofa), Lutz descobre que uma das cruzes nas paredes está brilhando mais do que o normal. Aquela, especificamente, não é de níquel, mas de pura prata. O soldado corre para chamar outro recruta que faz a ronda noturna, Otto (Jona Jones), e juntos eles puxam a cruz, que está firmemente presa a um enorme bloco de pedra. A retirada do bloco revela a entrada de um túnel enorme e escuro. Lutz está convencido de ter encontrado seu tesouro: com um cinturão amarrado ao tornozelo, e Otto segurando firme, ele se esgueira pelo túnel e descobre que vai dar no coração subterrâneo do fortim. Neste momento, numa das cenas mais maravilhosas do filme, a câmera começa com um take fechado em Lutz, segurando sua lanterna na mais profunda escuridão, e então a câmera vai se afastando lentamente, dando ao espectador uma idéia da imensidão daquele subterrâneo, com o soldado e sua lanterna ficando cada vez menores, até se transformarem num minúsculo pontinho ao longe, na escuridão... Simplesmente genial!!!


Não há um tesouro ali, logicamente. O subterrâneo é a prisão de uma cratura demoníaca, mostrada inicialmente na forma de uma nuvem etérea e indefinida, que ataca Lutz. Do lado de fora do túnel, Otto puxa o companheiro para fora, numa bela cena em câmera lenta, apenas para descobrir que o soldado foi partido ao meio pela criatura (no livro, apenas a cabeça do soldado era arrancada!). Quando a
"coisa" no subterrâneo se liberta pela passagem na parede, Otto também é fulminado pela poderosa entidade, voando para longe, mais uma vez em câmera lenta, enquanto sua cabeça explode no percurso!!!
Longe dali, em Pireus, na Grécia, um estranho acorda na sua cama com uma chuva de luzes brilhantes. Desde sua primeira aparição em cena, o roteiro deixa bem claro que o tal homem (interpretado por um jovem Scott Glenn) tem uma forte conexão com o fortim, e também que ele não é exatamente um homem, mas sim uma entidade sobrenatural (seu olhos brilham, precisa mais alguma coisa?). Claro que tudo isso fica bem explicadinho no livro, mas no filme transforma-se num dos grandes furos da adaptação de Mann. Isso porque, na obra literária, a revelação da natureza sobretural do estranho fica guardada para o final (e ele é um homem ruivo de olhos azuis, segundo Wilson). De todo jeito, de volta ao filme, o homem levanta sobressaltado da cama ao perceber que algo aconteceu no Passo Dinu. Ele se veste, pega uma misteriosa caixa comprida de madeira e parte rumo à Romênia no barco de um pescador, com muita pressa de chegar logo ao fortim.


Na cena seguinte, quando voltamos ao Passo Dinu, passou um bom tempo desde a morte dos dois recrutas pamonhas e da fuga da criatura presa nas paredes do fortim. Woermann está sendo comunicado pelo sargento Oster (Phillip Joseph) que um soldado chamado Steiner foi a quinta vítima da
"força" à solta no local, e que o quartel-general recusou o pedido de transferência feito pelo capitão. Logo, ele vai ter que ficar ali e defender sua posição; ou morre, ou descobre o que está matando seus homens.
Nem precisa dizer que este enorme salto no tempo (cinco vítimas???) estraga uma das grandes sacadas do livro de Wilson: em
"O Fortim", depois que a entidade aprisionada nas paredes era libertada pelos dois recrutas, um soldado alemão começava a ser morto por noite, sempre com a garganta estraçalhada (nada de cabeças e corpos explodidos, como no filme). O capitão Woermann do livro fazia uma tentativa desesperada de deter as mortes, colocando sentinelas duplas para vigiar o pátio, chegando ao cúmulo de deixar todo o pelotão acordado numa das noites, mas alguém SEMPRE morria antes de amanhecer. Inicialmente, todos pensavam que as mortes eram praticadas por um grupo de guerrilheiros romenos não-simpatizantes do nazismo, que entravam no local por passagens secretas. Isso até o próprio comandante ver, com seus olhos, uma sombra sobrenatural esgueirar-se por um dos corredores para matar um de seus soldados. Nada disso, infelizmente, aparece no filme, ou, vai ver, eram parte das cenas filmadas por Mann para a sua sonhada versão com mais de 3 horas.


Mas o filme volta a ficar fiel ao texto literário quando um novo destacamento de veículos nazistas chega ao Passo Dinu. Desta vez não são soldados comuns, mas sim
einsatzcommandos, ou seja, membros da temida SS, a violenta polícia secreta de Hitler. Liderados pelo major Eric Kaempffer (um jovem Gabriel Byrne), os violentos
einsatzcommandos já chegam fazendo folia: eles enfileiram alguns homens da vila num paredão e fuzilam os coitados sem cerimônia, mesmo com os protestos do capitão Woermann.
"Guerrilheiros estão conspirando contra o Führer deste vilarejo. A partir de agora, morrerão cinco pessoas por cada alemão morto!", esbraveja Kaempffer. Acreditando que está lidando com adversários humanos, ele tenta pôr em prática a típica
"tática do medo" comum da SS. É claro que os atos violentos do major desagradam ao pacífico Woermann, que é um soldado nazista, mas do tipo honrado, que não mata mulheres e crianças desarmadas, como fazem os
einsatzcommandos. Desde o começo, a relação dos dois oficiais é tensa e furiosa - um detalhe bastante fiel ao livro.
Os homens de Kaempffer levam cinco moradores da vila para dentro do fortim, ameaçando executá-los se mais algum soldado alemão morrer naquela noite. E Woermann encontra, numa das paredes, uma misteriosa inscrição em algum idioma desconhecido. Nenhum dos aldeões sabe o que aquilo significa, mas o padre Fonescu (Robert Prosky, interpretando um personagem que originalmente não existia no livro) lembra que há um professor de história medieval, o professor Theodore Cuza, que no passado estudou a fundo a história do fortim. Se alguém sabe traduzir aquilo, acrescenta o sacerdote, é Cuza. Só que não vai ser tão simples contatá-lo, diz o padre:
"O professor Cuza é um judeu. E vocês sabem para onde levam os judeus, não é?", ironiza ele.


Quando vemos o professor Cuza (um jovem e ainda desconhecido Ian McKellen) pela primeira vez, ele está com sua filha, Eva (Alberta Watson; no livro, a personagem se chama Magda Cuza), no que parece ser um campo de concentração, ao lado de outros prisioneiros, inclusive ciganos. O professor tem 48 anos, mas aparente ter 68. Ele sofre de uma doença rara chamada esclerodormia. Em conseqüência disso, seu corpo envelhece rapidamente, obrigando-o a andar de cadeira-de-rodas e usar grossas luvas de algodão para que seus dedos não gangrenem ao menor friozinho. Eles primeiro aparecem num campo de concentração, mas, num daqueles cortes inexplicáveis da péssima edição feita pelo estúdio, no take seguinte pai e filha já aparecem no fortim, sendo interrogados pelo pérfido major Kaempffer.
"Quem vai para os campos de concentração só tem uma entrada e uma saída... E a saída é uma chaminé!", ameaça o oficial, enfurecendo Cuza. Woermann, mais solidário ao pesquisador, implora pela sua ajuda. O professor traduz a mensagem na parede como
"Eu serei livre!", e diz que está escrita em eslavônico antigo, um idioma que ninguém mais utiliza.
"Senhores, seus guerrilheiros escrevem numa língua morta há 500 anos!", ironiza.
Os oficiais mantêm Cuza e sua filha num dos aposentos do fortim, junto aos outros prisioneiros. Falando em particular com o professor, Woermann pede apenas que seus homens parem de morrer, e que, se Cuza encontrar uma forma de deter as mortes, talvez ele possa enviar pai e filha até Bucareste em segurança, e não de volta ao campo de concentração. Naquela noite, entretanto, o assassino do fortim voltará a atacar: quando dois
einsatzcommandos agarram Eva para tentar estuprá-la, uma nuvem de fumaça se aproxima rapidamente pelo corredor e suga a energia vital dos soldados através de seus olhos e bocas (fazendo, conseqüentemente, a cabeça dos dois explodir, em mais um belo efeito em câmera lenta).



Em seguida, uma forma indefinida de fumaça ergue Eva em seus
"braços" e leva-a até os aposentos onde ela está acomodada com seu pai. Ao ver aquela entidade fantasmagórica, Cuza praticamente se mija nas calças.
"Eles me chamaram para encontrar o que estava matando os soldados. E agora eu encontrei, não é?", diz o professor à criatura, e ela responde com uma voz cavernosa:
"Eu preciso de um aliado, mas você colabora com eles?". Cuza oferece como aliado da
"coisa", e esta, como prova de confiança, toca no aleijado professor, curando-o de sua moléstia - a cena é bizarra, e mostra McKellen sendo
"eletrocutado" com uns raiozinhos azuis pra lá de trash!
Agora, imagine-se no lugar do professor: vítima de uma moléstia filha da puta que vai lhe matando aos poucos enquanto limita seus movimentos, preso a uma cadeira-de-rodas, sabendo que tem pouco tempo de vida e que provavelmente será mandado direto para um campo de concentração com a filha após
"ajudar" os nazistas. E, pior, sabendo que os alemães já estão quase dominando toda a Europa e podem muito bem dominar o mundo em breve. O que você faria? Como uma versão contemporânea de
"Fausto" (a clássica história de Goethe sobre o sujeito que vende a alma ao diabo), Cuza se alia à misteriosa criatura. Afinal, ela está matando um inimigo em comum, os nazistas; ela o curou completamente da sua doença terminal; e, o golpe final, ela prometeu que irá até a Alemanha para matar o próprio Adolf Hitler, assim que estiver forte o suficiente para sair do fortim. Não tem como não concordar com a aliança de Cuza; nesse ponto, ele não está mais pensando em si mesmo, de forma egoísta, mas no próprio povo judeu que está sendo exterminado nos campos de concentração. E se a criatura for maléfica... ora, não são os próprios nazistas o Mal encarnado?


Enquanto seu pai vira ajudante do monstro do fortim, Eva é transferida para a hospedaria da vila pelo capitão Woermann, preocupado com a fato de a moça poder ser atacada pela criatura ou por seus próprios soldados. Esperto, Cuza percebe que Woemann e Kaempffer não se topam e vai dissimulando, jogando aos poucos um contra o outro. Na hospedaria, Eva encontra o misterioso homem que viajou da Grécia ao Passo Dinu. Graças à edição grosseira, que deve ter cortado todos os diálogos entre ele e a moça, os dois se olham por um breve momento e, no take seguinte, já estão protagonizando uma tórrida cena de sexo! Assim, sem mais nem menos!!! Tipo:
"Oi, vamos transar?". É uma coisa completamente sem pé nem cabeça, e obviamente só ficou assim porque cenas-chave foram cortadas na edição final.
No livro, por exemplo, o envolvimento de Magda (Eva) com o estrangeiro é lento e gradual; ela é representada, pelo autor, como uma mulher que não se interessa pelos homens, que nunca provou dos prazeres do sexo e que ocupa seu tempo exclusivamente cuidando do pai moribundo. Quando ela encontra o homem misterioso, resolve se entregar a ele principalmente pelo medo de morrer nos próximos dias sem saber como é fazer amor com alguém. Já o estrangeiro não quer apenas se aproveitar da indefesa donzela, mas sim lembrar-se de como é amar uma pessoa, já que em sua existência de vários séculos ele nunca conheceu o verdadeiro amor... Sentiu o clima? E no filme, tudo o que temos é um olhar seguido de uma trepada em câmera lenta!!! hahahahaha
Logo fica claro que foi o estrangeiro quem construiu o fortim e aprisionou a criatura em suas paredes. Mas quem é o malvado da história? Será que é a criatura, aquela mesma que está matando gente muito pior (os nazistas), e que promete acabar com a raça de Hitler em pessoa? Será o estrangeiro, cujo envolvimento com a fortaleza e com a entidade aprisionada ainda não está bem clara?


É este impasse entre as duas metades da batalha que torna
A FORTALEZA INFERNAL interessante até a conclusão. Infelizmente, o filme, pelo menos, termina sem explicar muita coisa. E é aí que se torna necessário ler o livro de F. Paul Wilson, para saber mais sobre a motivação dos personagens e seus objetivos. Mas se a versão cinematográfica ficou do jeito que ficou, acredito que a culpa seja mais da edição criminosa da
Paramount do que de Michael Mann, reconhecidamente um cineasta preocupado com
"detalhes" como composição de personagens e roteiro - lembre-se que
FOGO CONTRA FOGO, uma história simples de polícia contra bandido, tem mais de três horas de duração!
Algum cabeça-de-bagre poderia classificar tanto
"O Fortim" quanto
A FORTALEZA INFERNAL como uma simples história de horror. Seria uma classificação que não faz justiça nem ao livro nem ao filme. Ao misturar criaturas humanas monstruosas - como o major nazista Eric Kaempffer e seu sonho de exterminar o maior número de judeus nos campos de concentração - com uma criatura sobrenatural - o
"fantasma" do fortim -, livro e filme parecem querer provocar o espectador para que ele pense quem é o verdadeiro vilão: os cruéis nazistas ou a cruel criatura que está matando-os violentamente? Soldado honrado e dedicado ao seu país, mas descontente com a loucura de oficiais como Kaempffer, o capitão Woermann chega a questionar o comandante da SS:
"O que vamos fazer se isso que está nos matando for como você?". São questionamentos como estes, e a maneira como a história do livro e do filme manipulam o espectador, que fazem de
A FORTALEZA INFERNAL uma obra obrigatória para fãs de bom cinema.


O maior defeito da versão cinematográfica é que ela começa e termina sem explicar o mais importante: quem é a criatura, quem é o estranho homem que quer destruí-la e, afinal, por que um odeia tanto o outro? Se você ler o livro
"O Fortim", vai ficar sabendo que a criatura se chama Radu Molasar (seu nome real é Rasalom, mas isso é uma reviravolta do final da trama que não convém explicar). Molasar é um necromante mais antigo que todas as religiões, uma força maléfica que se alimenta da maldade humana, e não de sangue. Mesmo assim, foi ele quem deu origem a todas as lendas sobre vampiros; tanto que, diante do professor Cuza, ele finge que é um verdadeiro vampiro, inclusive que tem medo de cruzes - quando, na verdade, não tem.
Já o estrangeiro se chama Glaeken, e é o extremo oposto de Molasar: um soldado das forças do Bem, por assim dizer. É tão velho quanto Molasar e vive eternamente com a missão de destruí-lo. Muitos séculos antes, quando teve a primeira e única chance de destruir o inimigo, Glaeken hesitou, pois temia que, ao matar Molasar, tornaria-se um mortal, perdendo o dom da vida eterna. Assim, resolveu o dilema construindo o fortim e aprisionando Molasar dentro dele. As milhares de cruzes nas paredes não são cruzes, mas sim o punho de uma espada, espécie de amuleto que foi colocado na prisão da criatura para que ela não conseguisse deixar o fortim (detalhe não-aproveitado e nem explicado no filme). Na caixa de madeira que leva sempre junto consigo, Glaeken tem a lâmina da espada. Ao encaixar o punho na lâmina, ele cria a única arma no mundo capaz de destruir Molasar. Como a criatura do Mal não pode deixar o fortim sem se livrar do amuleto, convence o pobre professor Cuza de suas boas intenções para que o bem-intencionado homem leve o amuleto para fora do fortim, o que libertaria Molasar para dominar o mundo.


E afinal, o que vemos de tudo isso em
A FORTALEZA MALDITA? O amuleto que prende a criatura está lá, a parte em que Molasar convence Cuza a livrar-se do amuleto também. Mas o roteiro nunca se preocupa em explicar (pelo menos não na versão editada que foi lançada comercialmente) o que é Molasar (um vampiro? um extraterrestre? um fantasma?), e muito menos quem é Glaeken (sabe-se apenas que ele tem poderes sobrenaturais e que quer destruir a criatura do fortim). Incrivelmente, nem mesmo os nomes dos dois personagens são citados NO FILME INTEIRO, a não ser numa única linha de diálogo onde Eva diz ao seu pai:
"Este amuleto pertence a Glaeken, e não a Molasar!!!". Se você for ver o filme sem ter lido o livro, provavelmente vai se perguntar:
"Cuma? Mola... o quê? E quem diabos é Glaeken?". Pois se Eva sabia o nome de ambos, provavelmente eles foram mencionados outras vezes antes, nas cenas cortadas da versão de 3h30min que Mann queria fazer. Do jeito que está, simplesmente não faz sentido!!!
Se a
Paramount tivesse sido menos tosca, porca e apressada, bastava filmar uma única cena de diálogo onde alguém explicaria tudo em flashback, inclusive os nomes, origens e as motivações das duas criaturas. Não seria tão complicado: percebam que, em dois parágrafos, eu mais ou menos expliquei tudo ali em cima. Os produtores podiam ter pedido a Mann para filmar alguma cena onde o padre Fonescu, por exemplo, contaria a lenda do fortim, falando sobre Glaeken e Molasar, e pronto, estaria tudo menos confuso. Mas preferiram simplesmente ir cortando as cenas aleatoriamente, e assim o espectador acaba sem saber nada sobre um e outro, apenas presumindo que o personagem de Scott Glenn seja o herói!


Edição criminosa à parte, é bem interessante o tom exagerado e estilizado que Michael Mann deu ao filme visualmente. Esqueça o
"horror gótico" do livro de Wilson:
A FORTALEZA MALDITA é berrante, repleto de luzes brilhantes e gelo seco. A espada que Glaeken usava no livro para despachar Molasar transformou-se, no filme, numa arma futurista bizarra, uma espécie de bastão cilíndrico que emana uma luz púrpura (!!!), bastante semelhante aos sabres de luz da série
STAR WARS, onde o guardião da fortaleza encaixa o amuleto
"hi-tech" para despachar o vilão. A cena é no mínimo esquisita, já que Glaeken parece possuir uma arma futurista em pleno ano de 1941. Pior: quando ele dispara os raios, todas as cruzes do fortim se iluminam e criam uma grade de raios azulados, uma maluquice que só poderia ter sido concebida nos histéricos anos 80!!! A própria trilha eletrônica (composta com sintetizador) do
Tangerine Dream nem sempre se encaixa no espírito do filme: às vezes é épica e emocionante; em outras, exagerada e tão deslocada quanto tocar Mozart num show de heavy-metal.
Uma boa idéia de Mann foi a forma como ele apresentou a evolução gradual de Molasar, desde sua forma simples como um espírito descarnado até tornar-se uma entidade de carne-e-osso. No livro, a criatura é representada como um vampiro comum, com dentes pontudos, longos cabelos negros e até... não vale rir... uma capa!!! Mann resolveu modernizar o negócio, fazendo de Molasar uma verdadeira criatura das trevas, gigantesca, musculosa, espécie de versão futurista do Golem, aquele monstro de barro da mitologia.
No livro, sempre que Molasar atacava, ele encobria o ambiente em que sua vítima estava com um manto de escuridão. Seria impossível fazer tal coisa com os efeitos especiais disponíveis em 1983 (lembre-se que ainda não existia a facilidade da computação gráfica), mas a equipe de
A FORTALEZA INFERNAL foi criativa e se virou de forma decente: antes de retomar seu corpo físico, Molasar é representado como uma grande massa de fumaça, que se esgueira pelos corredores sem uma forma definida. É muito legal o vulto de fumaça que deveria ser um homem (fico pensando como conseguiram fazer isso sem CGI); já o restante da
"evolução" de Molasar fica na fronteira do trash, pois percebe-se que é um ator (Michael Carter, que apareceu em
O RETORNO DE JEDI) dentro de uma imensa roupa de borracha. Pior, com os olhos num vermelho brilhante pra lá de exagerado!!! Curiosamente, a maneira como Molasar suga a energia vital de suas vítimas (representada por raios azul-claro que saem dos olhos e boca das pessoas atacadas) foi
"copiada" dois anos depois em
FORÇA SINISTRA, de
Tobe Hooper. Ah sim: F. Paul Wilson não gostou nada do Molasar cinematográfico. Disse que ele parecia ridículo, e comparou-o a um filho bastardo de Hulk e Darth Vader!!! hahahahahaha.


É uma pena que
A FORTALEZA INFERNAL tenha terminado do jeito que ficou, ainda mais tendo nascido como um projeto com a melhor das intenções. E mesmo com a edição criminosa e incompleta, ainda é possível vislumbrar as boas qualidades que certamente deveriam ficar ainda mais evidentes na versão integral negada ao diretor Mann. O elenco, por exemplo, tem atuações soberbas, excetuando-se o galã Glenn, que entrega uma robótica e inexpressiva personificação de Glaeken, como se o herói fosse um andróide, e não um amargurado imortal que não pode se apaixonar sob pena do sofrimento de ver sua amada morrer (quase como um vampiro bonzinho). O restante mata a pau, especialmente Prochnow (um ótimo ator geralmente desperdiçado), numa interpretação de soldado nazista de bom coração (sim, isso existe), com quem o espectador chega a simpatizar. Já Byrne é um vilão de respeito, quase roubando a cena do
"verdadeiro vilão" Molasar. Infelizmente, o habitualmente ótimo McKellen não pode demonstrar muito talento dramático debaixo de uma maquiagem carregada - e sua interpretação de velhote, quando na vida real estava na faixa dos 40 anos, beira o ridículo.
Mas seria injusto não reservar um parágrafo inteiro para falar da melhor coisa do filme: Alberta Watson e sua primorosa interpretação de Eva Cuza, uma jovem mulher forte que precisa salvar seu pai das garras dos nazistas, lutar contra uma criatura sobrenatural e ainda entregar-se a um grande e imortal amor - tudo no MESMO FILME! A atriz já tinha passado dos 30 anos quando integrou o elenco de
A FORTALEZA MALDITA, mas sua beleza madura ainda hoje chama a atenção, mesmo que a moça passe a maior parte do tempo coberta com um figurino pesado e nada sedutor. Dá pena de pensar que, se o filme fosse feito hoje, provavelmente iriam colocar um traste adolescente como Mena Suvari ou Tara Reid no papel, no lugar de um mulherão como Alberta. Dá pena, também, constatar que a moça não fez mais nada de expressivo ou conhecido, embora recentemente tenha aparecido em alguns episódios da quarta temporada de
24 HORAS.


Renegado pelo escritor e, na sua versão atual, também pelo roteirista e diretor,
A FORTALEZA INFERNAL é um daqueles filmes que sobrevivem no coração de quem viu e gostou. Quando se fala na obra de Michael Mann, é muito difícil a nossa desinformada imprensa citar o filme - a revista SET, principalmente, só lembra de Mann por
COLATERAL e
O INFORMANTE!!! Eu ainda sonho ver uma
"Director's Cut" com a versão integral do sonho de Mann em relação à obra (veja mais no texto abaixo), mas pelo jeito isso vai demorar muito para acontecer...
Felizmente para o mundo do cinema, Mann recuperou na TV seu prestígio arranhado com o fracasso comercial de
A FORTALEZA INFERNAL, e, após o sucesso do seriado
MIAMI VICE, mergulhou de cabeça em mais uma adaptação literária para o cinema. Dessa vez, escolheu um livro pouco conhecido e mais simples chamado
"Dragão Vermelho", de Thomas Harris, que hoje todo mundo sabe ser a primeira história do famoso Hannibal Lecter. Mantendo sua postura cabeçuda de fazer filmes com um toque pessoal, Mann mudou a maior parte da trama do livro - algumas mudanças para melhor, outras para pior -, e
MAN HUNTER (o produtor preferiu não usar o título do livro no filme) é hoje um respeitado clássico cult - e bem melhor que seu remake,
DRAGÃO VERMELHO, diga-se de passagem.

Bem longe de seus tempos de
A FORTALEZA INFERNAL, Mann é hoje um dos melhores e mais respeitados cineastas americanos em atividade. Também é um dos mais chatos: lança
"director's cut" de praticamente todos os seus filmes, de
O ÚLTIMO DOS MOICANOS até
ALI e
MIAMI VICE. Quem sabe ele não pega o embalo e resolve olhar para trás, para aquele longínquo ano de 1983, e desenterra dos porões do fortim a sua versão de 3h30min de
A FORTALEZA INFERNAL? Molasar espera por um retorno triunfante das trevas... e POR FAVOR POR FAVOR POR FAVOR POR FAVOR, que este retorno aconteça com a
"director's cut" de Michael Mann, e não com algum ridículo remake contemporâneo repleto de computação gráfica!
SAIBA O QUE O ESTÚDIO DEIXOU DE FORA:
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"As pessoas vivem me perguntando sobre o filme. Elas lêem o livro e não conseguem acreditar no que Michael Mann fez com ele. Ou então elas vêem o filme, não entendem nada do que está acontecendo e então compram o livro e nem acreditam que ele foi a base para o filme." Esta frase é de Francis (F.) Paul Wilson, autor de "O Fortim", best-seller em que A FORTALEZA INFERNAL se baseia. E olha que este é apenas o mais brando dos comentários que o escritor já fez à adaptação cinematográfica de Mann, em entrevista a um site da internet. Mesmo assim, a frase deixa bem clara a posição de Wilson em relação à adaptação cinematográfica da sua obra, tanto visualmente quanto no roteiro: ele NÃO aprova as mudanças e considera incompreensível a edição de 1h36min lançada comercialmente.
Um diretor autoral, Mann quis dar seu toque pessoal ao filme: estilizado, poético e inteligente. Numa entrevista da época do lançamento, ele disse o seguinte: "O livro é muito interessante, quando você começa a ler não consegue mais parar. Mas o que o livro faz é contar uma história de horror gótico que se passa na Romênia de 1941. |
Quando eu li, percebi que havia algo de fascinante na história, mas eu não estava interessado em fazer um horror gótico. Eu queria era interpretar a história como uma fábula, usando os personagens para personificar antagonistas bastante dramáticos". Na mesma entrevista, o cineasta disse queria fazer o que chamava de
"um conto-de-fadas para adultos", uma história fantástica sobre a luta entre o Bem e o Mal, mas que tivesse como pano de fundo a triste realidade da Segunda Guerra Mundial - mais ou menos como Guillermo Del Toro fez recentemente com
A ESPINHA DO DIABO (2001) e
O LABIRINTO DO FAUNO (2006), duas obras-primas que utilizam a Guerra Civil Espanhola como ponto de partida para narrar justamente
"um conto-de-fadas para adultos".


No caso de
A FORTALEZA INFERNAL, o roteiro escrito por Mann adaptou boa parte do livro quase literalmente. A chegada dos alemães ao fortim, os diálogos do capitão Woermann com o guardião da fortaleza Alexandru, a cena em que o soldado Lutz liberta Molasar acidentalmente, a participação do professor Cuza e o envolvimento de sua filha, Eva, com Glaeken são apresentados de forma idêntica ao livro, muitas vezes até aproveitando os diálogos na íntegra, sem mexer uma linha (principalmente na cena entre Woermann e Alexandru; compare livro e filme para ver a fidelidade da adaptação).
A principal mudança em relação à obra literária é que o roteiro elimina todas as referências ao vampirismo - como o fato de Molasar ter inspirado as lendas romenas sobre vampiros e também de fingir ser um vampiro nos seus encontros com o professor Cuza. Foi isso que mais enfureceu o autor Wilson, já que o filme não se preocupa em explicar o quê, afinal, é Molasar: um demônio ou algo diferente?
Além disso, Mann não aproveitou uma das grandes idéias de
"O Fortim": o fato de Molasar estar usando os cadáveres dos soldados que matou como mortos-vivos, que trabalham à noite, cavando no porão do fortim, para encontrar o local onde Glaeken enterrou o amuleto que impede a saída do Mal da fortaleza. É justamente este exército de zumbis que massacra todos os soldados nazistas ainda vivos no fortim, na parte final do livro. Infelizmente, tal detalhe tétrico não entrou no filme, onde é o próprio Molasar quem extermina todos os invasores.
Se pelo teor do meu artigo você achar que eu sou o maior apaixonado por
A FORTALEZA INFERNAL que existe no mundo, saiba que está enganado: existe um francês maluco chamado Sthépane Piter que é simplesmente VICIADO na obra de Michael Mann, ao ponto de expressar toda a sua paixão num dos mais completos sites que já vi sobre um filme - ainda mais um filme obscuro, no caso deste em questão. O
site, em inglês, tem entrevistas com praticamente todos os envolvidos no projeto, páginas e páginas sobre a adaptação e as cenas excluídas, reproduções de fotos dos bastidores e das páginas do roteiro... Enfim, toneladas de material para fã nenhum botar defeito.
Piter é, provavelmente, o maior apaixonado por
A FORTALEZA INFERNAL do mundo, o sujeito respira
A FORTALEZA INFERNAL e faz questão de dividir seu amor com o resto do planeta! O cara até criou sugestões de futuras edições especiais em DVD do filme (inclusive uma com QUATRO DISCOS, que só existe na imaginação deste maluco!), mostrando como gostaria que fossem o estojo, a arte da capa, o encarte... Enfim, ele é completamente doido, mas muito criativo. E também, como eu, sonha ver as 3h30min integrais da obra de Mann.
As fotos que ilustram este texto secundário foram todas retiradas do site do francês. São stills oficiais da produção, fotografias publicadas em revistas na época das filmagens e mesmo screencaps que Piter fez das cenas excluídas que conseguiu encontrar sabe-se lá aonde. Todas estas imagens dão uma boa pista do que seria a versão de 3h30min que Michael Mann tanto sonhava.
Algumas fotografias mostram um cineasta mais do que detalhista, filmando trechos cuja existência não seria tão necessária para a compreensão da história (como o padre Fonescu e os homens da aldeia discutindo os problemas que a chegada dos nazistas traria, e o capitão Woermann encontrando os dois primeiros cadáveres deixados por Molasar. Outras mostram Eva observando e conversando com Glaeken, provavelmente ANTES da cena de sexo entre ambos, comprovando que havia um interlúdio romântico completamente cortado pelos produtores - para eles, parecia mais simples que o casal se visse uma única vez e logo fosse transar, vê se pode!


Uma das fotografias dos bastidores mostra o diretor Mann ao lado do ator Morgan Sheppard, que interpretou Alexandru, o guardião da fortaleza. E repare que Sheppard tem um machado cravado nas costas! No filme, Alexandru simplesmente some da trama depois do seu primeiro encontro com os nazistas. Mas, na versão integral concebida por Mann, a influência nefasta de Molasar se espalharia pelo vilarejo (como acontecia nas páginas do livro), fazendo com que os filhos de Alexandru matassem o pai a machadadas, em cena filmada, mas que acabou entre tantas cortadas pela
Paramount. Outro trecho do livro filmado por Mann, mas não incluído na edição, é Glaeken matando impiedosamente um grupo de piratas que tentaram roubá-lo enquanto ele fazia sua viagem de barco da Grécia ao Passo Dinu.

Ainda nas fotografias, e também na capa da revista especializada em cinema fantástico Starburst, é possível ver, em parte, dois dos finais alternativos criados e filmados por Mann, mas nunca aproveitados na edição final. Em um deles, durante sua luta, Glaeken e Molasar cairiam no profundo fosso ao redor do fortim (os atores foram pendurados em cabos para a filmagem da cena). Então Eva desceria até as profundezas do fosso para resgatar o corpo do amado, e, com um abraço no cadáver inerte, traria o herói de volta à vida com a força do amor. Um segundo final alternativo (veja a foto do trio de atores juntos) mostraria Glaeken, o professor Cuza e Eva viajando de barco pelo Mediterrâneo, para bem longe do pesadelo.



Quando poderemos ver a
"director's cut" de
A FORTALEZA INFERNAL? Provavelmente só no dia em que Molasar conseguir escapar do fortim pela segunda vez, e esse dia deverá demorar muito a chegar. Acredite se quiser, mas o filme não saiu em DVD nos EUA nem na sua versão atual e mutilada. Por lá, como no Brasil, só existe a velha fitinha VHS, embora circule uma misteriosa versão em widescreen lançada em laserdisc há muitos anos (esta pode ser encontrada no Emule, mas a imagem não está das melhores).
Em 2001, chegaram a circular boatos (nos States, é claro) sobre uma possível edição especial em DVD, que teria comentários de quase todos os atores (no caso, Ian McKellen, Gabriel Byrne e Jürgen Prochnow, os únicos que têm orgulho da obra), além de possíveis cenas excluídas e finais alternativos. Entretanto, segundo alguns comentários que li no IMDB, a distribuidora teria abortado os planos da edição especial pelo alto custo de gravar uma faixa de comentário com o agora astro (pós-
O SENHOR DOS ANÉIS) McKellen.


Novos boatos da edição especial surgiram em 2003, até que, em 2004, alguns sites e revistas gringas sobre cinema fantástico anunciaram que
A FORTALEZA INFERNAL sairia mesmo em DVD pelado e full screen, com a versão
"oficial" de 96 minutos. Muito bla-bla-bla, mas nada de lançamento. Circula uma fofoca de que ele foi cancelado depois que o próprio Mann pediu para que a
Paramount desistisse de relançar o filme, numa troca de favores pelo sucesso de bilheteria de
COLATERAL (dirigido por ele em 2004).
A última informação sobre o tão prometido DVD é da época do lançamento de
MIAMI VICE, filme mais recente de Michael Mann. Numa entrevista lá nos EUA, quando questionado sobre
A FORTALEZA INFERNAL por um (corajoso) repórter, o cineasta respondeu da mesma forma que sempre: que odeia o filme e que não teria qualquer participação em um futuro DVD. Ou seja: nada de
"director's cut", já que Mann não quer ver o filme nem pintado de ouro - ele inclusive recusou-se a falar sobre a obra para um livro sobre a sua carreira, como se a produção jamais tivesse existido!

Talvez um dia o cineasta olhe para trás, para o início da sua carreira, e resolva trazer de volta à luz do dia sua tão sonhada versão integral de
A FORTALEZA INFERNAL, e talvez só então o mundo irá saber o filmaço que perdeu a chance de ver nos últimos 25 anos graças à idiotice de um grupo de executivos. Ou, quem sabe, as três horas e meia irão se revelar uma porqueira ainda pior que a edição de 96 minutos feita pelo estúdio em 1983. De qualquer jeito, ainda restarão fãs apaixonados que lembrarão com carinho deste filme. E eu sou e continuarei sendo um deles.
Para comentar o artigo e entrar em contato com Felipe M.Guerra:
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A FORTALEZA INFERNAL (The Keep, Inglaterra, 1983). Duração: 96 minutos
Direção: Michael Mann
Roteiro: Michael Mann, baseado no romance de F. Paul Wilson
Produção: Gene Kirkwood; Hawk Koch
Produção Executiva: Colin M. Brewer
Fotografia: Alex Thomson
Música: Christopher Franke; Edgar Froese; Johannes Schmölling
Desenho de Produção: John Box
Direção de Arte: Alan Tomkins; Herbert Westbrook
Figurino: Anthony Mendleson
Maquiagem: Graham Freeborn; Joyce James; Beryl Leiman; Nick Maley; Richard Mills; Barbara Ritchie
Efeitos Especiais: Nick Allder; Alan Bryce; Kevin Herd; Garth Inns; Melvyn Pearson
Efeitos Visuais: Robin Browne; Doug Ferris; Jamie Harcourt; Wally Veevers; Keith Holland
Edição: Dov Hoenig; Chris Kelly
Elenco: Scott Glenn (Glaeken Trismegestus); Alberta Watson (Eva Cuza); Jürgen Prochnow (Capitão Klaus Woermann); Robert Prosky (Padre Fonescu); Gabriel Byrne (Major Kaempffer); Ian McKellen (Dr. Theodore Cuza); William Morgan Sheppard (Alexandru); Royston Tickner (Tomescu); Phillip Joseph (Sargento Oster); Michael Carter (Molasar); John Vine (Lutz); Jona Jones (Otto); Wolf Kahler; Rosalie Crutchley (Josefia); Frederick Warder; Bruce Payne; David Cardy; John Eastham; Philip Bloomfield; Yashaw Adem; Stephen Whittaker; Lan Ruskin; Robin Langford
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