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CHAMAS DA VINGANÇA
(The Firestarter, 1984, EUA)
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Direção: Mark L. Lester.
Roteiro: Stanley Man, baseado em obra de Stephen King.
Produção: Frank Capra Jr..
Edição: David Rawlins e Ronald Sanders.
Música: Tangerine Dream.
Elenco: David Keith (Andrew 'Andy' McGee), Drew Barrymore (Charlene 'Charlie' McGee), Freddie Jones (Dr.Joseph Wanless), Heather Locklear (Victoria 'Vicky' Tomlinson McGee), Martin Sheen (Captão Hollister), George C. Scott (John Rainbird) e Art Carney (Irv Manders).
Distribuição: Inédito em DVD no Brasil. |
SINOPSE |
Adaptado de um romance de Stephen King, Chamas da Vingança conta a história de Andrew McGee, um jovem que participou, nos anos 70, de uma experiência científica que transformou a sua vida num pesadelo. Hoje, ele e sua filha Charlie, que nasceu com o poder quase incontrolável de provocar incêndios, fogem de uma agência governamental que quer a qualquer custo se apoderar das habilidades da criança.
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“Terá ela poder para sobreviver?”
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Perto do final dos anos 70 e início dos anos 80, o mundo descobriu Stephen King. Neste período, grandes diretores investiram em adaptações para o cinema de textos do autor. Primeiro foi Brian De Palma, com “Carrie, A Estranha” (1976). Stanley Kubrick dirigiu Jack Nicholson em “O Iluminado” (1980). John Carpenter (“Christine, O Carro Assassino”, 1983) e David Cronenberg (“A Hora da Zona Morta”, 1983) fecham este primeiro ciclo de produções de sucesso que encantaram o público e, de quebra, deram uma forcinha para que King arrebatasse uma legião de fãs ao redor do mundo. Infelizmente o êxito destas produções também abriu as portas para que cineastas “não-tão-talentosos” embarcassem na idéia de transportar King para a tela grande. Este é o caso de Mark L. Lester, que em 1984, levou para os cinemas o romance “Firestarter” (lançado no Brasil como “A Incendiária”).
Existe um pequeno paradoxo em comparar literatura com cinema. Tal comparação é tão incoerente (já que são “mídias” muito diferentes) quanto inevitável. No caso específico de “A Incendiária”, o próprio livro já era considerado uma obra menor, mesmo entre os fãs do autor. E a adaptação nas mãos de nosso amigo Lester realiza a proeza de ser ainda mais inferior ao livro.
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Enfim, “ Chamas da Vingança” é um filme medíocre. A falta de ousadia e a preguiça do diretor ficam evidentes já nos primeiros minutos, como por exemplo, no trecho em que descobrimos como os pais de Charlene se conheceram. O casal se encontra pela primeira vez numa espécie de posto médico improvisado numa universidade. Em troca de alguns dólares, o casal e outros jovens aceitam que lhes sejam injetados uma nova droga psicotrópica, derivada do LSD, chamada lote 6. O experimento, bancado pelo governo norte-americano, dá errado e a situação foge do controle. No livro, uma das cobaias chega arrancar os olhos com as mãos. No filme, tudo é mostrado em flashback, e o máximo que vemos são algumas pessoas gritando e tendo convulsões. Um episódio com um potencial enorme, infelizmente desperdiçado nesta adaptação.

Assim como a direção, a fotografia e a edição das imagens são exageradamente convencionais e em vários momentos temos a impressão de estarmos vendo um daqueles filmes “made for TV”, onde os recursos para a produção são, na maioria das vezes, muito limitados.
Felizmente, nem tudo foi equívoco em “ Chamas da Vingança”. A escolha “quase” acertada de um elenco “quase” afinado acabou salvando o filme do desastre total. O elenco é encabeçado pela então estrela mirim Drew Barrymore, que vinha do mega-sucesso “ ET – O Extraterrestre”, interpretando a estridente Charlene, a menina com poderes pirocinéticos. Soma-se ao elenco os ótimos Martin Sheen e George C. Scott (“ Exorcista III”), como a dupla de vilões que sonham em usar os poderes da inocente garotinha para o mal. Aliás, Martin Sheen vive aqui um segundo vilão criado por Stephen King: em “ A Hora da Zona Morta”, o ator interpreta Greg Stillson, um ex-vendedor de Bíblias que se torna um inescrupuloso político que pode acabar iniciando uma guerra nuclear. O ponto fraco do elenco fica por conta da interpretação pouco convincente do péssimo David Keith ( “Demolidor”), como o pai de Charlene.
Antes de continuar, vou retornar ao quesito diretor. Depois de mancharmos a imagem do pseudo-cineasta Mark L. Lester nos parágrafos anteriores, é necessário fazer certa justiça.
 | | Provando que na democrática Hollywood existe espaço para todos, o cineasta acabaria encontrando a sua verdadeira vocação nos anos que se seguiriam. O destino do homem seria dirigir filmes de ação, daqueles para macho, com armas avantajadas, tiros pra tudo quanto é canto e heróis desfilando sem camisa. São de Lester as seguintes pérolas: “Comando Para Matar” (com Schwarzenegger), “Massacre no Bairro Japonês” (com Dolph Lundgren e Brandon Lee), “Blowback – O Anjo da Morte” (com Mario Van Peebles) e “A Base” (com Marc Dacascos).

Voltamos ao filme em questão, mais precisamente ao roteiro adaptado escrito por Stanley Mann, que não traz grandes alterações em relação à obra de King. O enredo, apesar de não ser muito original (paranormais estavam in voga na época, basta lembrarmos “ Carrie – A Estranha”, “ Scanners – A Sua Mente Pode Destruir” ou “ A Fúria”), não deixa de ser atraente. A trama gira em torno da fuga desesperada de um pai e de sua filha. Os dois não são exatamente pessoas comuns: enquanto o pai consegue ler mentes e influenciar as ações de outras pessoas, a filha tem o poder de criar incêndios de diferentes proporções. Uma organização ligada ao governo, chamada “The Shop”, está disposta a qualquer coisa para colocar as mãos nos poderes da pequena garota.   
Outro ponto que podemos destacar como positivo são os caprichados efeitos especiais, principalmente na sequência do desfecho. Pelo menos para isso, o orçamento foi generoso. O filme não poupa nas explosões, incêndios, prédios e carros destruídos.
A trilha sonora, composta pelo grupo de rock progressivo alemão Tangerine Dream (“ Fortaleza Infernal” e “ Quando Chega a Escuridão”), segue a receita dos anos 80, com melodias que exageram nos sintetizadores e na bateria eletrônica. Infelizmente, hoje estas composições soam extremamente datadas, nos dando a impressão de estarem deslocadas das imagens.
Existe mais um detalhe que acaba incomodando aos mais chatos: toda vez que Charlene vai usar seus poderes, uma espécie de corrente de ar arrepia seus cabelos e o seu rosto é mostrado em close. O mesmo artifício é usado com o pai, que cada vez que vai controlar a mente de alguém, pressiona a cabeça com os dedos, como se ligasse algum botão. Caracterização um tanto desnecessária, e boba, que só torna as situações ainda mais artificiais.  
E pensar que tudo poderia ter sido diferente em “ Chamas da Vingança”. Originalmente, o filme era para ser dirigido por ninguém menos que John Carpenter. De acordo com o cineasta, os executivos o afastaram do projeto após o fraco desempenho de “ Enigma do Outro Mundo” nas bilheterias americanas. Vale lembrar que hoje o filme é considerado uma das melhores produções de horror/ficção dos anos 80.
Entretanto, apesar de frustrados, os produtores não chegaram a sair no prejuízo. O filme rendeu 15 milhões de dólares nos cinemas norte-americanos igualando o valor gasto na produção. 
E como tudo passa e a vida não pára, e todos precisam de dinheiro, em 2002 foi lançada uma continuação produzida para a TV, chamada “ Vingança em Chamas” (lançado em DVD no Brasil pela Universal), com Malcolm McDowell, Dennis Hoper e Marguerite Moreau no papel que foi de Drew Barrymore. Esta nova trama se desenrola dezoito anos após os acontecimentos do primeiro filme. Charlene vive sob custódia do agente Rainbird, um misterioso homem que recruta adolescentes com poderes especiais para transformá-los em armas.
No Brasil, “ Chamas da Vingança” ainda permanece inédito em DVD. Para os curiosos e aventureiros que ousarem enfrentar o pó e o mofo dos sebos especializados, a versão em VHS foi lançada nos anos 80 pela extinta CIC vídeo.
João Pires Neto
Principal
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