CASA DE CERA, A

por Felipe M.Guerra

Sangue, cera e Paris Hilton de calcinha... A Dark Castle finalmente acertou uma!!!

Criada na metade dos anos 90 com a intenção de refilmar - ou "revitalizar", como dizem seus mentores - velhos clássicos do horror classe B, a produtora Dark Castle foi a pior coisa que já aconteceu ao cinema de horror americano desde a invasão dos PÂNICOS, LENDAS URBANAS e VERÕES PASSADOS. A Dark Castle é capitaneada por um trio de peso: o roteirista da série de TV CONTOS DA CRIPTA, Gilbert Adler, o conhecido cineasta Robert Zemeckis e o produtor Joel Silver. O que juntou os três foi o amor ao cinema B dos anos 50 e 60. Eles trabalharam juntos nos episódios do seriado CONTOS DA CRIPTA, mas queriam lançar longas para o cinema com a idéia de dar uma chance a novos cineastas, produzindo versões modernas de "clássicos" do horror de antigamente.
É uma pena que, na prática, as boas intenções de Adler, Zemeckis e Silver fiquem apenas na idéia: não saiu um filme que prestasse das "reimaginações" produzidas pela Dark Castle. O primeiro petardo foi A CASA DA COLINA, de 1999, que era remake de HOUSE ON HAUNTED HILL, um velho filme de William Castle com Vincent Price no elenco. Apesar de cenários deslumbrantes e algumas boas situações, a história afundava na meia hora final, repleta de efeitos especiais fora de lugar, que tornavam risível o que era para ser assustador. Em seguida veio o ainda pior 13 FANTASMAS, de 2001; GIlbert Adler pulou fora e a companhia partiu para duas histórias independentes (não-remakes), o razoável NAVIO-FANTASMA, de 2002, e o horrendo GOTHIKA - NA COMPANHIA DO MEDO, de 2003, que quase afunda a Dark Castle de vez e ainda destruiu as chances do diretor francês Mathieu Kassovitz (de O ÓDIO e RIOS VERMELHOS) nos Estados Unidos...



O grande problema de todas estas produções é que, por mais bem-intencionados que Adler, Zemeckis e Silver fossem, eles deveriam ter deixado seus projetos a cargo de diretores conceituados e com um mínimo de experiência na área - tipo um John Carpenter ou um Tobe Hooper. Mas os produtores fizeram justamente o contrário: resolveram torrar milhões de dólares com videoclipeiros medíocres, cineastas amadores de primeira viagem e técnicos em efeitos especiais - como os péssimos Steve Beck e William Malone -, que transformaram promissoras histórias de horror em bobagens repletas de computação gráfica e efeitos sonoros hiper-ultra-mega-maxi-exagerados. Não tinha como dar certo... Tanto que não deu!!! E a Dark Castle passou a ser sinônimo de "bombas para a geração teen", aquele tipo de público que assiste PÂNICO e se diz fã de horror.



Mas esta longa introdução foi apenas para dizer que a Dark Castle finalmente acertou uma!!! Ainda está longe de gerar um grande clássico do cinema de horror, mas pela primeira vez, desde que a produtora surgiu, saiu algo minimamente interessante e digno de ser chamado de "filme de horror". A obra em questão é A CASA DE CERA, produção de 2005 que é vendida como um remake do HOUSE OF WAX de 1953, estrelado por Vincent Price e rodado em terceira dimensão - e que, por sua vez, já era uma refilmagem de uma produção de 1933!!! Analisando superficialmente, A CASA DE CERA tinha tudo para ser mais uma abobrinha com o padrão Dark Castle de "qualidade": um diretor estreante (o espanhol Jaume Collet-Serra, de quem ninguém nunca havia ouvido falar anteriormente), um intragável elenco de caras jovens e nada talentosas, um script que pouco tinha a ver com o original em que se baseava e a trilha sonora repleta de figurinhas carimbadas da geração teen, como o roqueiro-freak Marilyn Manson.

Diz aquele velho ditado que "gato escaldado tem medo até de água fria". Eu já não tinha gostado de nenhum filme anterior da Dark Castle e, baseado nas informações acima, não via motivo algum para perder meu tempo assistindo a este novo. Um grande erro: não se julga um projeto superficialmente, ou um livro pela capa. E, apesar de só ter lido críticas negativas sobre A CASA DE CERA (todos, da revista SET ao crítico Pablo Villaça, malharam o filme!!!), felizmente dei ouvidos ao meu colega de Boca do Inferno, o Renato Rosatti, que deu uma nota 7 à produção. Esperei que chegasse às locadoras, loquei e curti. Tenho que assumir: além de ser a melhor obra da Dark Castle, A CASA DE CERA também está entre as melhores coisas produzidas por um grande estúdio americano dentro do gênero horror este ano! Acredite: o elenco jovem e xarope não chega a incomodar (e isso que tem a insuportável Paris Hilton entre os coadjuvantes!!!), não há o excesso de efeitos digitais típico da Dark Castle e o roteiro prende a atenção até o final, ainda que volta-e-meia abuse dos clichês, dos sustos falsos que não assustam mais ninguém e dos manjados efeitos sonoros.



Porém, a melhor notícia para o fã do horror à moda antiga é que A CASA DE CERA, ao contrário de todas as outras bombas da Dark Castle (e de qualquer filmeco "teen" pós-PÂNICO), não nega fogo, ou melhor, sangue. Trata-se de uma produção extremamente violenta e gráfica, na linha explícita e exagerada do cinema dos anos 80 - tanto que nem pode ser chamada de "horror teen", já que nos cinemas brasileiros tomou censura 18 anos!!! Se você é daqueles que fica puto quando as imitações de PÂNICO desviam a câmera ou cortam bruscamente nas cenas de violência, prepare-se para testemunhar em detalhes ensangüentados diversas barbáries que só podem ter saído da cabeça de um diretor maluco pelo gênero. E é isso mesmo: fã de horror declarado, o diretor Collet-Serra encheu a metade final de seu filme de estréia com momentos fartamente sangrentos. Mostra, também, no mínimo uma cena chocante: aquela em que uma vítima é aprisionada e transformada, ainda viva, em estátua de cera. Só esta cena, sozinha, já vale o filme e todas as bobagens que os "horror teen" nos empurraram nos últimos anos.



A CASA DE CERA começa com um flashback situado no ano de 1974, onde somos apresentados a um curioso núcleo familiar, formado por uma mãe que produz estátuas de cera, um pai médico e dois irmãos gêmeos bem diferentes: um é calmo e sereno; o outro, tão revoltado que precisa ser amarrado e imobilizado à sua cadeira infantil para comer o café-da-manhã. Criativamente, o diretor Collet-Serra filma a seqüência inteira de cima, sem mostrar o rosto de nenhum dos quatro atores. A mulher é uma famosa escultora chamada Trudy Sinclair, e seu marido é um cirurgião de métodos polêmicos, o dr. Sinclair, que, aparentemente, utilizou seus próprios filhos em alguma bizarra experiência (que só ficaremos conhecendo na conclusão).

A cena corta imediatamente para os dias atuais, quando somos apresentados às nossas futuras vítimas: um grupo de jovens que se prepara para viajar rumo a outra cidade, onde irão acompanhar as finais de um campeonato estudantil de futebol americano. Num carro vai Blake (Robert Richard) e sua namorada Paige (a socialite insuportável, mas gostosa, Paris Hilton); no outro estão Carly (a gatinha Elisha Cuthbert, que interpreta a filha de Kiefer Shuterland no seriado 24 HORAS), seu namorado Wade (Jared Padalecki, da série YOUNG MACGYVER), o irmão de Carly, Nick (Chad Michael Murray, do seriado DAWSON'S CREEK), e o amigo deste, Dalton (um irreconhecível Jon Abrahams, de TODO MUNDO EM PÂNICO).



São "aborrecentes" simplesmente chatíssimos, entre os piores que o cinema de horror já mostrou, e não dá para simpatizar com nenhum deles - até pela farta utilização de estereótipos na composição dos personagens. A mocinha Carly é a típica garota inocente e inteiramente dedicada ao seu namorado, embora ambos discutam porque a moça quer ir morar em Nova York e Wade tem medo de deixar sua pacata cidadezinha (nossa, como isso é importante para a história!!!). O irmão de Carly, Nick, é o bad-boy que acabou de sair da cadeia por ter roubado um carro. Dalton, amigo de Nick, é o bocó que aparece em todo filme sempre com uma câmera de vídeo a tiracolo - e em todas as suas cenas está filmando todo mundo, como se os proprietários de câmeras em geral fossem "freaks" que passassem 24 horas filmando tudo e todos (detalhe: bateria e fita da filmadora nunca terminam!!!). Já Blake e Paige são o tradicional casal promíscuo que só pensa em transar (tanto que o roteiro brinca, o tempo inteiro, com o vídeo amador feito pelo ex-namorado de Paris Hilton na vida real, que mostra ambos transando).



No meio da viagem, que é feita à noite, o grupo precisa pegar um atalho por uma estrada que não conhece - óbvio! Acabam acampando no meio do bosque, numa região onde o vento traz um insuportável odor de podridão. Durante a noite, a visita de uma caminhonete suspeita assusta os jovens, mas já no começo da tarde seguinte eles se preparam para partir. É aí que acontece o inevitável: o carro de Wade aparece danificado, e o grupo precisa se separar. O casal Wade e Carly decide aceitar a carona de uma figura bizarra (Damon Herriman), que trabalha recolhendo animais mortos na estrada, e promete levá-los à cidade mais próxima, um lugarejo chamado Ambrose. No meio do caminho, porém, eles se desentendem e os jovens resolvem seguir a pé, chegando até a cidadezinha. Ali, estranham o fato do lugar estar praticamente deserto.

Ambrose tem cinema, posto de gasolina, mercearia, loja de animais e até um enorme museu de cera, mas nem sinal de habitantes nas ruas. Na igreja, eles interrompem um funeral e encontram, finalmente, alguém para conversar, o mecânico Bo (Brian Van Holt), que coincidentemente é dono da oficina e promete ajudar o casalzinho após o velório. Para matar tempo, Wade e Carly vão visitar a "Casa de Cera" - que é, literalmente, feita de cera, das paredes ao chão, dos móveis ao teto!!! O lugar está fechado, mas os jovens entram mesmo assim. E se impressionam com o realismo das imagens no interior do museu, sem nem desconfiar que são pessoas de verdade cobertas de cera, como irão descobrir, da pior maneira possível, mais tarde. Isso porque Bo se revela um psicopata que, juntamente com o irmão gêmeo Vincent (também interpretado por Van Holt), aprisiona turistas incautos para transformar em estátuas de cera. Os outros jovens mais tarde vão parar na cidadezinha, anoitece e todos precisam lutar por suas vidas para fugir daquele pesadelo de cera.



A bem da verdade, o roteiro assinado pelos irmãos Chad e Carey Hayes (responsáveis por um interessante horror de 1990, O LADO ESCURO DA LUA) aproveita bem pouco da história do HOUSE OF WAX original, além da existência de um museu de cera na trama. Se o filme de Vincent Price girava em torno de um escultor desfigurado que raptava pessoas para transformá-las em estátuas de cera, este remake é muito mais parecido com um ótimo filme B de 1979, ARMADILHA PARA TURISTAS, de David Schmoeller - do qual, inclusive, chupa algumas cenas. Os irmãos Hayes ainda têm muito que aprender sobre como criar medo e tensão, mas o diretor estreante contorna essas carências do roteiro usando de extrema violência e elaborados efeitos especiais (nunca gratuitos) para manter a atenção dos fãs do gênero.



O grupo de adolescentes patetas faz tudo errado desde o início do filme. Pegar um atalho que não conhecem? Hmmm, mau negócio desde O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA até PÂNICO NA FLORESTA. Acampar no meio da floresta? Bah, isso é perigoso desde SEXTA-FEIRA 13! Perambular por uma cidadezinha que parece deserta e ainda entrar nas casas sem serem convidados? Puxa, isso sim é imbecilidade! Não perceber o perigo oculto num museu de cera? Mas caramba, será que eles não viram filmes como A PASSAGEM e MUSEU DE CERA??? Some-se a tudo isso, ainda, a burrice de uma garota indefesa sair de shortinho da sua barraca no meio do mato para ir averiguar barulhos estranhos vindos da floresta, a extrema ingenuidade de aceitar carona de um caipira esquisito e completamente desconhecido e o clichê máximo de, quando perseguido por um psicopata, subir as escadas para o segundo andar, ao invés de sair pela porta da frente - um clichê implacavelmente satirizado no primeiro PÂNICO, e que justamente por isso JAMAIS deveria ser utilizado novamente a sério!!!



Além disso, o roteiro demora praticamente uma hora para começar a despachar seus personagens. Neste meio-tempo, fica criando situações bobas e "conflitos" entre eles, na tentativa de tornar cada um dos jovens mais "interessantes", sem nunca conseguir. O marginal Nick confessa, a certa altura, que não roubou carro algum, apenas encobriu o furto cometido pelo seu amigo Dalton. Ora, que diferença tal revelação faz na trama? Já Paige, a personagem de Paris Hilton, fica desde o início do filme tentando contar para seu namorado que está grávida - outro detalhe completamente dispensável da história. E o que dizer da birra nunca justificada (e totalmente desnecessária) dos irmãos Carly e Nick??? No fim, tudo isso só serve para ficarmos com ainda mais raiva dos personagens e torcer para que todos morram violentamente para nosso sádico deleite!

E é aí que entra em ação a mente imaginativa do diretor Collet-Serra: para cada uma dessas bobagens pouco inspiradas do roteiro, ele contra-ataca com momentos inspirados de choque, nojeira ou violência explícita. É o caso da cena em que Paige e Carly entram na floresta para averiguar de onde vem o mau cheiro do local (por que não simplesmente ir embora???). Pois não é que Carly cai de um barranco e afunda bem no meio de uma nojenta fossa de animais mortos e apodrecidos? E a câmera não poupa o espectador de nauseantes closes das mãos da mocinha afundando naquela pasta sangrenta de carne decomposta, de maneira que quase chegamos a sentir o fedor que Carly deve estar sentindo na ocasião.



A CASA DE CERA também tem um momento bastante nauseante onde um dos jovens é aprisionado e passa por uma lenta e detalhada sessão de "preparação" para virar estátua de cera. O malucão Vincent, que usa ele próprio uma máscara de cera, costura caprichosamente os ferimentos no corpo do rapaz, depois arranca dolorosamente os pêlos do rosto (como sobrancelhas e cílios!), e então imobiliza a futura "obra-de-arte" num aparelho esquisito, após anestesiar o rapaz para que não morra de dor. Nesse momento, é impossível não sentir um arrepio de horror quando Vincent abre as válvulas e libera litros de cera quente sobre a vítima indefesa, que não consegue se mexer e nem gritar de dor, sendo lentamente transformada em uma escultura viva!!! De longe, uma das mais bizarras cenas de horror do cinema moderno! E a coisa tem seqüência mais adiante: quando um dos amigos da vítima descobre o que aconteceu, tenta "libertar" o rapaz da camada de cera e, no processo, vai arrancando a própria pele da "estátua", que, viva mas sem reação, só consegue soltar algumas lágrimas de dor!!! Brrrrr...



A censura 18 anos também é justificada em outras cenas de violência bastante gráficas, já que a câmera nunca desvia do alvo. Há dois momentos arrepiantes de ataque ao calcanhar (brrrrr...), de botar no chinelo a clássica "cena do bisturi" de O CEMITÉRIO MALDITO; há também cabeças decepadas, dedos decepados, flechas atravessando corpos e um momento onde o rosto de um homem é detalhadamente desfigurado a golpes de taco de beisebol, que não deve nada à "cena do extintor de incêndio" do polêmico IRREVERSÍVEL. E não vamos esquecer da já clássica morte de Paris Hilton (que nem é surpresa, já que o marketing do filme dizia: "Venha ver Paris morrer!"). Para arrematar, toda cena envolvendo morte é extremamente exagerada. Se um garoto aparece com uma faca enfiada na garganta, o diretor faz questão de mostrar o psicopata pisando na faca para enterrar ainda mais a lâmina na garganta da vítima!!! É pouco ou quer mais?

Pois A CASA DE CERA ainda surpreende o espectador alterando a ordem tradicional das mortes do gênero, despachando primeiro um dos personagens mais simpáticos (e justamente aquele que você acha que vai sobreviver), e por último aquela que você espera que vá antes - sim, Paris Hilton. O roteiro surpreende, também, por reservar sofrimentos bastante dolorosos para a mocinha Carly, que, aprisionada pelos irmãos lunáticos, tem desde a boca colada com Super Bonder (aii!) até a ponta de um dos dedos cortada com alicate! Caramba! E eu achando que era só mais um "horror teen"... Prepare-se, também, para vários e bem-vindos instantes de "contra-clichê". Por exemplo: assassino leva uma flechada e cai, então a mocinha se aproxima do "corpo" para ver se ele está mesmo morto. Ora, é claro que ele vai "acordar" e pular em cima dela, não vai? Bem... ERROU!!!! Veja com seus próprios olhos!



Claro que A CASA DE CERA também tem seus pontos fracos e furos. Além da péssima composição dos personagens, o diretor resolveu manter o "padrão Dark Castle de qualidade" e jogar na cena final todos os efeitos digitais que não utilizou ao longo do tempo de projeção. Assim, prepare-se para ver uma overdose de CGI, na cena em que o museu pega fogo e estátuas humanas derretem em close, enquanto paredes e o piso da casa vão amolecendo e também derretendo (porque é tudo cera!). O diretor inclui até uma ridícula (de tão falsa) tomada aérea dos personagens subindo uma escada de cera enquanto o fogo em CGI consome todo o andar de baixo do museu - uma coisa tão artificial que quase dá para ver um "made in a IBM PC" no cantinho da tela. E a conclusão é bem bobalhona, com uma revelação que não muda nada a trama, embora tente soar surpreendente. A própria idéia de que possa existir uma cidadezinha abandonada que nem existe no mapa, com pessoas transformadas em estátuas de cera, é muito inverossímil, e só revela a total estupidez da polícia americana - mesmo que eles não soubessem da existência de Ambrose, poderiam ao menos ter chegado lá mais cedo ou mais tarde, investigando a enorme quantidade de desaparecimentos na região... E aviões, será que não sobrevoavam aquela área?

Mas, ao longo do tempo do filme, o espectador até perdoa essas e muitas outras besteirinhas. Isso porque A CASA DE CERA é bastante inspirado, e boa parte desta qualidade se deve à direção de arte. Os cenários "de cera" da cidade de Ambrose são fantásticos, e as estátuas, realmente, muito realistas e assustadoras. Do laboratório secreto onde o vilão constrói suas estátuas (repleto de ferramentas, canos enferrujados e tons pastéis, além de um corredor com rostos agonizantes esculpidos em cera) até o cinema (que exibe O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? para uma platéia imóvel) e a igreja, todo o cenário parece passar a idéia de que a fuga é impossível. O filme pode até não ser particularmente assustador (e qual filme recente é, tirando as boas surpresas vindas do Oriente?), mas com certeza reserva alguns bons arrepios.



E quanto a Paris Hilton? Bem, acredite se quiser, mas a loirinha gostosa NÃO compromete. Em momento algum a produção esconde que o fato de Paris estar no elenco é uma mera jogada de marketing - tanto que a milionária socialite parece estar interpretando ela mesma, o tempo inteiro. A participação de sua personagem no filme é curta demais para que ela possa estragar o filme, e Paris ainda enfeita um pouco a tela ao fazer um pseudo-striptease para seu namorado, aparecendo rapidamente de sutiã vermelho e calcinha atolada. Pena que logo tome o que merece, antes de ter tempo de mostrar um pouco mais, como fez no vídeo amador apelidado ONE NIGHT IN PARIS (a melhor "interpretação" da moçoila até hoje). Entretanto, a morte da loirinha é um dos grandes momentos de A CASA DE CERA, e um verdadeiro gozo orgasmático para quem não agüenta essa xarope e sua super-exposição na mídia!

Então, você já sabe: da próxima vez que lhe falarem o nome Dark Castle, tente segurar a raiva e dê uma chance à produtora americana, que com A CASA DE CERA conseguiu a façanha de realizar seu primeiro filme pelo menos próximo do que podemos chamar de "cinema de horror divertido". Não é pouca coisa, e é incrível como as produções anteriores, tipo A CASA DA COLINA e 13 FANTASMAS, são completa e totalmente eclipsadas em comparação a este novo filme. Sim, amigos, a Dark Castle finalmente acertou uma! E, ironicamente, este acerto foi um de seus maiores fracassos: custou 30 milhões de dólares e arrecadou pouco mais de 32 milhões nos cinemas americanos, já que o público-alvo da produtora, a gurizada, não pôde ver devido à censura muito alta!!!



Agora, recomendo que os produtores analisem profundamente tudo o que funcionou no filme para continuar neste caminho, deixando os Steve Beck e William Malone definitivamente desempregados. A CASA DE CERA pode até não ser o novo clássico pelo qual uma geração inteira de fãs de horror aguarda. Mas, com certeza, é divertidíssimo. E encharcado de sangue!!!!

A CENA QUE VOCÊ NÃO VIU NO CINEMA

O DVD de A CASA DE CERA traz o que parece ser um início alternativo. A cena, que não foi exibida nos cinemas, chama-se "Jennifer Killed". Mas quem diabos é Jennifer? É uma pobre moça que teve problemas com seu carro nas redondezas da cidadezinha abandonada de Ambrose e chamou um guincho... Pena que ela não sabia que a região é dominada pelos malignos irmãos Bo e Vincent Sinclair. Logo surge uma caminhonete, com o motorista não-identificado (mas quem viu o filme já sabe sua identidade), que agarra Jennifer pelo pescoço, acelera e então atira a pobre moça sobre o pára-brisa do próprio carro, arrebentando a fuça da vítima. Contando com um ridículo efeito de computação gráfica (julgue você mesmo pelas fotos), a cena não faz falta alguma no filme e só existia mesmo para mostrar que os irmãos psicóticos agiam há anos nas redondezas de Ambrose, matando pessoas para aumentar o número de estátuas em seu museu de cera. Eu só não reparei se realmente é mostrada, em alguma cena posterior, a estátua de cera da desafortunada motorista...




PESADELO MOLDADO EM CERA

A Dark Castle não foi a primeira a investir nas arrepiantes histórias envolvendo museus de cera. Na verdade, como muita gente se arrepia diante do realismo das esculturas feitas deste material, o tema já foi largamente utilizado pelo cinema de horror, ainda que, nos dias atuais, museus de cera já não sejam mais uma coisa tão comum. Confira uma seleção com outros populares títulos envolvendo museus de cera e terrores diversos. Nem todos foram lançados no Brasil; por isso, Emule neles!

o MUSEU DE CERA (House of Wax, EUA, 1953)
Direção: André De Toth. Com Vincent Price, Frank Lovejoy e Carolyn Jones
Este é o "clássico B" que teria inspirado A CASA DE CERA, e que, por sua vez, já é um remake do filme dirigido por Michael Curtiz em 1933. Vincent Prince interpreta Henry Jarrod, um famoso escultor de imagens de cera que fica deformado após um incêndio. Na tragédia, todo seu trabalho em um conceituado museu de cera é destruído. Jarrod fica lelé-da-cuca e resolve recriar seu museu, transformando pessoas vivas em estátuas de cera. Num daqueles milagres que de vez em quando acontecem, o filme foi relançado em DVD no Brasil num disco dupla face contendo, também, o original que lhe deu origem, chamado OS CRIMES DO MUSEU! Desnecessário dizer que isso só aconteceu depois que a terceira versão da mesma história, o moderno A CASA DE CERA, estreou nos cinemas...Originalmente, MUSEU DE CERA foi exibido em terceira dimensão.


o OS CRIMES DO MUSEU (The Mystery of the Wax Museum, EUA, 1933)
Direção: Michael Curtiz. Com Lionel Atwill, Fay Wray e Glenda Farrell
Quem diria que o diretor do clássico romance CASABLANCA teria um filme de horror em seu currículo... Pois Michael Curtiz dirigiu, nos anos 30, a obra que deu origem a MUSEU DE CERA e A CASA DE CERA. Lionel Atwill interpreta Ivan Igor, escultor de estátuas de cera londrino, que não consegue evitar que todo seu trabalho seja destruído em um incêndio - provocado pelo seu sócio para roubar o dinheiro do seguro. Ele viaja a Nova York e abre um novo museu de cera; quando pessoas começam a desaparecer, fica bem óbvio o método utilizado por Ivan para recriar suas esculturas... Destaque para a participação da scream queen dos anos 30 Fay Wray, que um pouco antes havia encarado um gorilão gigante no clássico KING KONG. Disponível em DVD no Brasil, vendido como programa duplo com seu remake, MUSEU DE CERA.

o MUSEU DOS HORRORES (Maschera di Cera, Itália, 1997)
Direção: Sergio Stivaletti. Com Robert Hossein, Romina Mondello e Massimo Vanni
Uma das tentativas tardias de reanimar o moribundo cinema de horror italiano. Era para ter sido dirigido por Lucio Fulci, mas o mestre morreu no ano anterior, deixando apenas o roteiro prontinho para ser filmado - baseado em argumento de Dario Argento. Colaborador habitual de Fulci, o maquiador Sergio Stivaletti resolveu encarar o desafio de dirigir a obra (sua estréia como cineasta). A trama, que tem uma bela produção, começa na Paris de 1900, quando uma misteriosa criatura mascarada, e com garras de aço, mata violentamente um homem ao arrancar seu coração; depois, a ação muda para Roma, com a abertura de um museu de cera e novos crimes cometidos pela mesma figura mascarada. Tem alguns efeitos bastante sangrentos, mas seria interessante ver a versão do mestre Fulci sobre o mesmo argumento... Lançado no Brasil apenas em VHS - e, mesmo assim, muito mal-lançado, difícil de encontrar.

o TERROR IN THE WAX MUSEUM (idem, EUA, 1973)
Direção: Georg Fenady. Com Ray Milland, Maurice Evans e John Carradine
Exibido na TV brasileira como MUSEU DE CERA DOS HORRORES, este filme B com um elenco de veteranos continua inédito nas locadoras do país. Na Londres do século 19, o veterano John Carradine personifica Claude Duprée, proprietário de um museu de cera, que é assassinado às vésperas de vender o local. As suspeitas recaem sobre diversas pessoas, entre elas um homem misterioso interessado em comprar o museu e o curador do local, Harry Flexner (Ray Milland). Mais alguns assassinatos acontecem para esquentar a história, que não tem grandes efeitos ou cenas de violência, na linha das produções baratas do período.

o SANTO NO MUSEU DE CERA (Santo en el Museo de Cera, México, 1963)
Direção: Alfonso Corona Blake e Manuel San Fernando. Com Santo, Claudio Brook e Rubén Rojo
Até o famoso lutador mascarado e super-herói mexicano Santo deu uma pausa nos seus confrontos com o dr. Frankenstein, múmias astecas e vampiros para enfrentar os horrores de um museu de cera. Nessa produção em preto-e-branco, trash até a medula (como todas as do "astro"), Santo usa o tempo livre entre suas apresentações de luta livre para investigar uma série de seqüestros na cidade. Descobre que a chave do mistério é um cientista maluco, o Dr. Caroll, que pretende usar partes das vítimas seqüestradas na criação de um exército de zumbis de cera (!!!). O enredo é uma cópia piratíssima do MUSEU DE CERA de Vincent Price. Claro, Santo sai na porrada com tudo e todos e torna o México um local mais seguro - isso até surgir a próxima ameaça sobrenatural, no ano seguinte!

o PESADELO DE CERA (Nightmare in Wax, EUA, 1969)
Direção: Bud Townsend. Com Cameron Mitchell, Anne Helm e Scott Brady
Produção barata que o SBT adorava reprisar na Sessão das Dez, em outros tempos. Também foi lançada em vídeo pela extinta F.J. Lucas. Cameron Mitchell, em mais um papel de desequilibrado, é Vincent Renard, maquiador de um famoso estúdio de cinema, que fica desfigurado após tomar um banho de ácido no rosto. Transformado num monstro, enlouquece e cria uma vingança terrível contra o estúdio, que considera responsável pelo acidente. Renard seqüestra os astros e estrelas, leva para seu laboratório secreto e os transforma em estátuas vivas de cera, que exibe, claro, num conveniente museu de cera. Na linha "quanto mais trash, melhor", esta podreira rivaliza com algumas obras de Ed Wood, incluindo uma ridícula maquiagem de rosto deformado no pobre Cameron Mitchell...

o A PASSAGEM (Waxwork, EUA, 1988)
Direção: Anthony Hickox. Com Zach Galligan, Deborah Foreman, Miles O'Keefe, John Rhys-Davies e David Warner
Um dos mais criativos filmes de horror dos anos 80, quando parecia que a década não tinha mais nada de interessante a oferecer. Um grupo de jovens, liderado por Zach Galligan, vai visitar um novo museu de cera que abriu na cidade, e que é administrado pelo suspeitíssimo David Lincoln (David Warner). O museu é repleto de cenários que recriam monstros famosos da vida real ou da literatura de horror, como Marquês de Sade, vampiros, lobisomens, múmias e zumbis. A novidade é que cada cenário tem o poder de sugar as pessoas da nossa dimensão, fazendo-as participar da situação representada, e tornando-se parte integrante do cenário! Isso é uma desculpa para o excelente (e sumido) diretor Anthony Hickox prestar emocionantes homenagens ao gênero, como o trecho em preto-e-branco com mortos-vivos, que é um tributo ao clássico A NOITE DOS MORTOS-VIVOS, de George A. Romero! Lançado em vídeo no Brasil há muitos anos, bem como sua continuação, WAXWORK 2 - PERDIDOS NO TEMPO.

o ARMADILHA PARA TURISTAS (Tourist Trap, EUA, 1979)
Direção: David Schmoeller. Com Chuck Connors, Jocelyn Jones e Tanya Roberts
Foi dessa produção barata assinada por David Schmoeller (de BONECOS DA MORTE) que o novo A CASA DE CERA retirou a maior parte de sua inspiração. Um grupo de jovens turistas tem problemas com seu carro e é obrigado a parar em um velho posto de gasolina, ao lado do qual funciona um museu de cera. Ali vivem dois irmãos: um deles é "normal", Slausen (o veterano Chuck Connors); o outro é Davey, um psicopata com poderes telepáticos e máscara de cera, que aprisiona os jovens para transformá-los em zumbis-manequins-estátuas de cera. O filme tem momentos de puro sadismo (como aquele em que uma jovem é transformada, ainda viva, em estátua de cera), e consegue provocar arrepios usando simples manequins. Infelizmente, no Brasil só existe em cópia dublada, lançada em VHS pela extinta VTI. Nos EUA, foi relançado recentemente em DVD, numa edição especial de 25 anos de seu lançamento.


Felipe M.Guerra

A CASA DE CERA (House of Wax, Estados Unidos / Austrália, 2005). Dark Castle / Warner. Duração: 105 minutos
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Chad Hayes e Carey W. Hayes, baseados em história de Charles Belden
Produção: Joel Silver, Robert Zemeckis, Susan Levin e Richard Mirisch
Produção Executiva: Bruce Berman, Polly Cohen, Herb Gains e Steve Richards
Fotografia: Stephen F. Windon
Edição: Joel Negron.
Música: John Ottman
Desenho de Produção: Grahan "Grace" Walker
Direção de Arte: Brian Edmonds e Nicholas McCallum
Elenco: Elisha Cuthbert (Carly Jones), Chad Michael Murray (Nick Jones), Brian Van Holt (Bo / Vincent), Paris Hilton (Paige Edwards), Jared Padalecki (Wade), Jon Abrahams (Dalton Chapman), Robert Richard (Blake), Dragitsa Debert (Trudy Sinclair), Thomas Adamson (Jovem Bo), Murray Smith (Dr. Sinclair), Sam Harkess (Jovem Vincent), Damon Herriman (Motorista), Andy Anderson (Xerife).


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