ANTICRISTO
(Antichrist, EUA, 2008)

Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier e Anders Thomas Jensen .
Produção: Meta Louise Foldager; Peter Garde; Peter Aalbæk Jensen
Edição: Anders Refn
Música:
Elenco: Willem Dafoe; Charlotte Gainsbourg
Distribuição: Califórnia Filmes


SINOPSE
Um casal em luto se isola no ‘Éden’, isolada cabana na floresta, onde esperam se recuperar de uma perda e do casamento em crise. Porém , a natureza assume o curso e as coisas vão de mal a pior...


“O caos reina.”

Recepção

Muitas vaias, algumas risadas e poucos aplausos. Parte da plateia formada pela crítica “especializada” abandonou a sessão onde era exibido um dos filmes mais aguardados do 62º Festival de Cannes, “Anticristo”, dirigido pelo dinamarquês Lars Von Trier. Reação semelhante se repetiu após as diversas apresentações do filme em São Paulo, quando o público formado por pessoas “comuns” deixava o cinema com a expressão estupefata, variando do ódio, desprezo ao deslumbramento. Isso é ruim? Não necessariamente.

Inegável é, até para os críticos mais vorazes, que Lars Von Trier seja um dos poucos cineastas que ainda tem colhões e autoria o suficiente para gerar polêmicas e discussões em torno de sua obra. Em tempos de cultura pasteurizada e embalada para consumo imediato, parece inviável ao artista contemporâneo assumir uma posição ideológica e desagradar alguns, ou muitos, como no caso do dinamarquês.
O que é pretensão para alguns, é genialidade para outros. Vale deixar claro, já neste ponto, que o objetivo deste artigo não é endeusar Von Trier, que apesar de uma cinematografia quase impecável, coleciona uma legião, tanto de fãs quanto de antipatizantes.

(o texto a seguir apresenta uma série de SPOILERS, assim como interpretações pessoais sobre o enredo)

Von Trier repete em Anticristo o artifício de compor a obra em capítulos, um recurso um tanto didático, que contrasta muitas vezes com a profundidade da obra. “Luto”, “Dor”, “Desespero” e “Os Três Mendigos”, além do prólogo e do epílogo, são os capítulos que compõem um enredo surpreendentemente simples, sem grandes revelações ou reviravoltas, onde um casal se isola numa floresta para superar a dor causada pela perda de um filho. A virtude do roteiro (escrito pelo Von Trier) está nas entrelinhas, na expansão dos significados de cada detalhe de cada cena. As possibilidades se multiplicam de forma instigante, provocadas por um simbolismo misterioso que funde (e confunde) religião e razão, levando o espectador a pensar muito sobre o filme. A pensar, repensar, re-repensar...



Primeiro Plano

Num primeiro plano, o longa narra o processo de enlouquecimento de uma mãe após a morte acidental do filho. Ela, consumida pela culpa (a criança cai da janela enquanto os pais faziam sexo), mergulha numa depressão profunda. O marido (em nenhum momento o casal é identificado por seus nomes), um experiente psicólogo, propõe um tratamento em que a mulher deve enfrentar todos os seus medos, não importando o quão obscuros sejam. Na teoria, a mãe estaria curada assim que compreendesse que mesmo os seus piores temores não representam uma ameaça verdadeira. O casal então se isola num local chamado por eles de Éden, uma espécie de cabana no meio de uma floresta.

O isolamento, a natureza onipotente, onipresente e extremamente opressora, o sentimento de culpa e os demônios do passado desencadeiam na mãe reações desprovidas de lógica ou mesmo de sanidade. Ela se torna violenta e uma ameaça real ao marido.



Mas, pode não ser bem assim. A exumação do corpo da criança revela uma curiosidade intrigante: um defeito nos pés do pequeno Nic. O pai descobre, que sabe-se lá por quê, a mãe sempre calçou no filho os sapatos invertidos (o direito no pé esquerdo e vice-e-versa). O sótão da cabana esconde outro segredo, ainda mais macabro. Centenas de anotações, por todos os lados, revelam o resultado de uma tese desenvolvida pela mãe meses antes. A mãe passara algum tempo no Éden, apenas com o filho, a fim de pesquisar sobre o sofrimento da mulher medieval, frequentemente acusada de bruxaria e perseguida pela Inquisição. A mãe chegou a uma conclusão oposta a intenção inicial do trabalho, ou seja, a Igreja Católica e a Santa Inquisição tinham razão em perseguir as mulheres, pois elas realmente carregavam no corpo o mal. O mal no sentido religioso, de manifestação diabólica. Portanto, como justificaria os próprios manuscritos da mãe, ela poderia não estar enlouquecendo, e sim manifestando uma maldade inerente a toda a natureza (que teria sido concebida por Satã e não por Deus) e que se apresenta de forma acentuada nas mulheres.



Neste primeiro plano, haveria, portanto, estas duas possíveis explicações para toda a violência desencadeada no Éden, a psicológica, onde a insanidade provocada pela dor da perda do filho ou a sobrenatural, que revelaria uma natureza diabólica da mãe, que poderia até ter colaborado para a morte do filho (no desfecho, um flashback deixa dúvidas se a mãe não teria visto a criança se aproximar da janela e ignorado).

Prólogo

Uma pequena obra prima dentro de um filme. Rodado em preto-e-branco e em câmera lenta, a sequência mostra de forma intensa e poética, o ato sexual dos pais. Enquanto a canção de Händel é tocada ao fundo, interpretada pela soprano norueguesa Tuva Semmingsen, uma corrente de ar abre a janela do quarto ao lado. Imagens se intercalam: a relação sexual dos pais e o filho lentamente caminhando até a janela aberta. O momento do orgasmo coincide fatalmente com a queda da criança.



O título e o simbolismo

Um dos enigmas propostos pelo filme é o próprio título. O que Von Trier quis dizer com Anticristo? Quem é o anticristo? Onde está o anticristo na trama? A interpretação mais facilmente aceita é a idéia proposta pela mãe de que a Natureza (plantas, animais, terra...) é o próprio Satã, ou o Anticristo.

Outra possibilidade remete a interpretação simbólica de vários momentos do longa. Não seria, portanto, “o” Anticristo e apenas anticristo, apontando para um posicionamento ideológico da obra e do seu autor. O filme seria nada mais do que um manifesto contra o cristianismo, da forma opressora, preconceituosa e manipuladora como sempre foi disseminado, principalmente pela igreja católica.



O sexo, apenas por prazer, é pregado como pecado (por isso o uso do preservativo é condenado) pela Igreja, que aconselha que as relações devem ser apenas para procriação. Na trama, quando a mãe e o pai pecam, fazendo sexo, o filho acaba morto, revelando a face de um Deus punidor e vingativo. Posteriormente a eliminação total do sexo acontecerá com a castração do pai e da mãe. Outro detalhe é que sempre é a esposa, assim como Eva, quem tenta seduzir o marido.

A figura feminina sempre foi vista como impura pela Igreja, tanto que apesar de freiras, mulheres não podem rezar missas. Durante a Inquisição, milhares de mulheres foram acusadas de bruxaria e queimadas na fogueira. No filme, a pesquisa da mãe corrobora esta visão satânica da mulher.

Os três mendigos apresentados no filme, representados pela Raposa, Corvo e Veado, podem ser uma alegoria aos Três Reis Magos, ou mais provavelmente a Santa Trindade: O Pai, O Filho e o Espírito Santo. Uma das últimas frases da mãe afirma que “os três mendigos não existem” (este trecho poderia representar uma negação final do cristianismo).



O próprio local onde pai e mãe vivem o conflito é chamado de Éden, remetendo ao Paraíso de onde Adão e Eva foram expulsos.

É interessante ainda mencionar que o cineasta, filho de ateus, ganhou aos 12 anos de idade um exemplar do livro O Anticristo, uma declaração contra o cristianismo escrita pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche. A obra foi o livro de cabeceira de Lars Von Trier durante muitos anos, até que, contraditoriamente, se converteu ao cristianismo.

Talvez a grande mensagem que o cineasta queira passar é que sexo não é pecado, a mulher não tem nada de maldade, Deus não é uma entidade vingadora e a religião é só mais uma forma de manipulação de poder... talvez...



Dogma?

É irônico que Lars Von Trier tenha subvertido a estética naturalista que ele próprio criou, com o movimento Dogma, nos anos 90. “Anticristo” é belíssimo visualmente, com uma fotografia impressionista e exuberante assinada por Antony Dod Mantle (do oscarizado “Quem Quer Ser Um Milionário”). A única herança dos experimentalismos da época do Dogma são as câmeras trêmulas, que de certo modo se opõem ao fino acabamento artístico das cenas, mas que não chegam a incomodar.



Filme de Terror, sim senhor

Outro questionamento, que certamente alguns leitores farão, é se Anticristo é um filme de terror. A classificação em um único gênero pode ser equívoca, já que o filme apresenta momentos dramáticos, mas também abusa de um realismo brutal nas sequências mais violentas.

Destes momentos incômodos para o público que segue o cineasta, mas não está habituado a violência on-screen apresentada nos então chamados torture porn, alguns se destacam:



- sem poupar o espectador, a mãe corta com uma tesoura o clitóris, tudo mostrado em detalhes (muito cuidado ao levar sua namorada para ver este filme no cinema);

- em outro momento, o casal interrompe uma relação sexual e a mulher, com um enorme bloco de concreto, atinge o pênis do marido. O homem desmaia, a mulher então masturba o marido, que acaba por ejacular sangue!!!

- não contente em provavelmente deixar o marido com sérios problemas sexuais, a mulher aproveita que ele continua sem sentidos e perfura-lhe a perna com uma furadeira. Ela então parafusa uma grande roda de aço (ou de pedra, não fica muito claro) na perna do esposo. Mesmo recobrando os sentidos, o homem não consegue se movimentar.



Pornografia?

Parte das polêmicas geradas em torno do filme deve-se pelas diversas sequências explícitas, mostrando os órgãos sexuais masculinos e femininos. No prólogo, quando o casal está se relacionando, é mostrado em close o momento da penetração sexual. Mas o sexo não é meramente ilustrativo, ele faz parte do emaranhado simbólico anti-religioso; e convenhamos, censura 18 anos, nada que ninguém nunca tenha visto, e mais de uma vez.

A Explicação do responsável

Quando questionado pela imprensa em Cannes, Lar Von Trier, sem nenhuma modéstia, declarou: "Não tenho que me justificar. Eu faço filmes e isto é fruto da vontade de Deus. Além disso, sou o melhor diretor de cinema do mundo". O cineasta confessou também que “Anticristo” foi uma espécie de tratamento e a rotina das filmagens o ajudou a superar parte de uma depressão que sofria há anos, e que por isso considera o filme como o momento mais importante de sua carreira.



Elenco

Outro ponto alto em Anticristo é o desempenho brilhante do casal, resultado da entrega de Willian Dafoe (“A Sombra do Vampiro”), que já havia trabalhado com Von Trier em Manderley, e da atriz inglesa Chalotte Gainsbourg (“Lemming – Instinto Mortal”). Gainsbourg recebeu, merecidamente, a Palma de Ouro em Cannes (2009).

Dedicado a...

Uma curiosa e irônica dedicatória é apresentada antes dos créditos finais: “Dedicado a Andrei Tarkovsky (1932 a 1986)”. O cineasta russo é responsável por clássicos como “Stalker” e “Solaris”, mas é famoso por abordar temas espirituais e metafísicos.



Iniciação no gênero?

Ao contrário do que muitos afirmam por aí, Anticristo não é o primeiro filme dirigido por Lars Von Trier que pode ser classificado como terror. Um dos seus primeiros longametragens é um horror chamado “Epidemic” (1987) e ainda na TV dinamarquesa, o cineasta dirigiu e produziu a minissérie sobre o hospital mal-assombrado “O Reino” (1994 e 1997), adaptado para o público americano por Stephen King (“Kingdom Hospital”, 2004).

Enfim

Anticristo é um filme para ser visto, amado e odiado. Daí então você poderá escolher entre as centenas de adjetivos que são frequentemente associados ao filme: metafórico, incômodo, alegórico, simbólico, polêmico, ambicioso, desagradável, gratuito, pretensioso, perturbador, desconcertante, polêmico, brilhante, sádico...

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